O mercado de venda de diplomas de ensino superior chegou a um nível impressionante de ousadia. Comprar um diploma pela internet, recebê-lo em casa pelos Correios sem nunca ter pisado em uma faculdade, embora seja crime, tornou-se um procedimento fácil e escancarado na rede. A reportagem do POPULAR estabeleceu contato com vendedores que anunciam o serviço em sites encontrados pelos mecanismos de busca. Eles prometem agilidade e veracidade da documentação, adotando quase sempre o mesmo método, com participação de funcionários das instituições de ensino (veja quadro). Diplomas de Engenharia, Direito, Psicologia e Enfermagem são alguns dos exemplos encontrados, com valores que variam conforme o pacote contratado.

O crime é praticado não só por quem vende, mas também por quem compra. Nos últimos anos, alguns casos de utilização de diplomas falsos vieram à tona. O mais recente, que surgiu no âmbito da investigação que apurou a fraude no concurso de delegado realizado pelo governo do Estado, foi exposto no ano passado, quando delegados da Delegacia Estadual de Repressão a Crimes Contra a Administração Pública (Dercap) descobriram que, entre os fraudadores, estavam um açougueiro e um contador. Eles apareceram entre os primeiros colocados do certame e, conforme o acertado, compraram não só a vaga, mas também o diploma de bacharel em Direito.

As conversas registradas pelo POPULAR foram feitas por e-mail e começaram em dezembro do ano passado. Na primeira resposta obtida, o vendedor enviou um texto padrão, respondendo as dúvidas e questões expostas na mensagem escrita na caixa de texto do próprio site onde estava o anúncio. Ele “trabalha” com diplomas de curso superior, mas de Ensino à Distância (EAD). Na mensagem de volta, a reportagem simulou a situação de uma pessoa que pretendia utilizar o diploma para prestar concursos e que estava preocupada quanto à veracidade dos documentos. A resposta obtida foi: “Toda documentação que disponibilizamos aos nossos clientes é obtida através de instituições credenciadas com o MEC e publicadas no Diário Oficial da União”.

Os criminosos fazem questão de citar o nome do Ministério da Educação como forma de dar credibilidade ao processo de negociação. As instituições de ensino de onde saem os diplomas, de fato, são reconhecidas pelo MEC, mas, em resposta à reportagem, via assessoria de comunicação, o Ministério esclareceu que não é o responsável por reconhecer os diplomas, e que quem se encarrega disso são as faculdades e universidades. E enfatizou, ainda, que o trabalho de investigação e averiguação dessas irregularidades não é sua responsabilidade, mas que, conforme a legislação prevê, deve ser feito pelas polícias, Ministério Público e, posteriormente, com punição da Justiça.

“SERIEDADE”

No dia 19 de dezembro, em uma outra conversa, após trocas de mensagens em dias anteriores, a reportagem tentou obter da vendedora de diplomas informações sobre quais instituições em Goiás ela mantinha contato e se era possível escolher a origem da documentação, optando não só pelo curso, mas também pela faculdade ou universidade de melhor renome. Além de não informar os nomes, alegando que isto é regra do procedimento e que “não há negociação com relação a estas regras”, a fim de preservar a segurança das partes envolvidas, ela ainda fez uso de expressões controversas para tranquilizar o cliente, como: “desenvolvemos um trabalho com seriedade” e “não nos parece interessante dar golpes, pois temos uma reputação no mercado e não podemos perdê-la”.

A reportagem chegou a essa pessoa por indicação de um outro vendedor. Ao perguntar se ele teria diploma de Direito para vender, ele respondeu que o estoque tinha acabado, mas que a professora Kelly teria. Um dia depois de receber o e-mail da reportagem, ela respondeu com uma mensagem padrão, esmiuçando todo o processo de venda e contratação do serviço, com destaque para as regras, valores e os produtos comprados, já que não seria apenas o diploma. O texto já começa com a frase “Diplomas Registrados em até 30 dias”, seguida da informação de que ela trabalha com todos os cursos superiores, tornando-a uma vendedora diferenciada no mercado.

Sem Cursos de saúde

Durante a pesquisa em sites de anúncio, a reportagem verificou que alguns vendedores deixam claro não trabalhar com cursos da área de Saúde. Em um dos casos, a pessoa chegou a colocar em destaque: “Não insista!”, indicando que a procura deve ser grande. Em julho do ano passado, por exemplo, a Polícia Federal (PF) deflagrou a operação Diploma Fácil, que desarticulou um esquema de venda de diplomas de Medicina. O valor pago pelo documento chegava a ser de R$ 140 mil. O líder da quadrilha era um goiano, natural de Acreúna, a 153 quilômetros de Goiânia e que morava no Paraguai, onde cursava Medicina. O crime foi descoberto depois que o grupo tentou burlar os registros dos conselhos regionais da categoria em Goiás, Sergipe e Bahia.

A venda e oferta de diplomas não se restringe à graduação. Um dos vendedores com o qual a reportagem conversou destacou na mensagem que também trabalha com documentos que atestam o término de pós-graduação, mestrado e até doutorado.

Em 2014, por exemplo, o Ministério Público Federal em Goiás (MPF-GO) chegou a denunciar por estelionato um ex-professor de Economia da Universidade Federal de Goiás (UFG) que obteve vantagem salarial apresentando um diploma falso de conclusão do doutorado.