Diante de um público ansioso, uma grande caixa recheada de cadernos, papéis, lápis e tintas ganha ares de baú do tesouro. Ao seu redor, crianças, acompanhadas de suas mães, se reúnem com olhares atentos e cheias de vontade de colocar as mãos no que há ali. O conteúdo já é conhecido: trata-se do material escolar que, nos últimos anos, tem sido arrecadado e doado a elas. Tampa levantada, a caixa é alvo dos desbravadores, que saem munidos dos instrumentos que dão forma aos sonhos. Os lápis de cor são, de longe, os preferidos.

Ocorrida na sede da Associação Tio Cleobaldo, no Setor Coimbra, na capital, onde parte dos itens que serão doados já está reunida, a cena resume o momento em que a união de esforços de integrantes de projetos sociais e de outros voluntários resulta em um início de ano letivo mais digno para dezenas de alunos da rede pública de Goiânia e de cidades próximas.

Diante da euforia dos pequenos, um dos voluntários presentes avisa: “Calma! Ainda não vai ser hoje, viu?”. O rapaz se diverte com a situação e tenta ajudá-los a conter a ansiedade, uma vez que a entrega deve ocorrer apenas no fim do mês, em paralelo com a volta às aulas, para quando é esperado um volume maior de itens recebidos.

Para várias daquelas crianças, contar com a solidariedade alheia é a única saída para poder retornar à sala de aula com os itens necessários para o dia a dia, uma vez que não há subsídio direcionado para este fim por parte dos governos estadual e municipal e que as famílias não dispõem de condições financeiras para fazer as compras.

É o caso da família de Patrícia Pires, que é mãe de sete filhos, que têm entre 5 meses e 15 anos de idade. Apenas o caçula não está em uma escola ou creche. Atualmente, ela e o marido, que tem problemas de saúde, estão desempregados, o que dificulta o acerto das contas da casa. Para eles, adquirir o básico já sairia caro, tendo como base, por exemplo, o valor de itens pesquisados pelo Procon Goiás.

Segundo a pesquisa do órgão, o mais barato caderno tipo universitário, com 16 matérias, tem preço médio de R$ 21,23. O modelo é semelhante ao que consta no kit organizado pelo grupo voluntário para o Ensino Fundamental, em que há uma unidade de 15 matérias. É nessa fase da escolarização que se enquadram quatro dos filhos de Patrícia, de 8, 11, 14 e 15 anos. Ao todo, apenas a aquisição dos cadernos daria R$ 84,92. Diante do custo, a mãe acredita que não conseguiria adquirir tudo o que é preciso.

Neste ano, esses quatro alunos, assim como os dois outros filhos mais novos de Patrícia devem voltar a ser contempladas com doações. Eles fazem parte do público atendido por Cleobaldo Martins de Oliveira, conhecido como Tio Cleobaldo, e por voluntários de projetos sociais, como o Pão com Amor e o Projeto Solidaire, que realizam, em conjunto, arrecadação de materiais durante este mês. A iniciativa existe há 3 anos e, no ano passado, distribuiu 400 kits escolares para crianças carentes. “Se não fosse isso, acho que meus filhos nem estariam estudando”, diz Patrícia.

Segundo Cleobaldo, o sucesso da iniciativa tem sido evidenciado pelos próprios estudantes. “Tem menino pequeno que vem me falar que só voltou a ir para a escola porque ganhou os materiais da gente”, diz o coordenador da associação que leva seu nome.

A prova do entusiasmo das crianças fica à mostra sem esforço. Deitado no chão do local em que a entrevista era feita, o pequeno Gabriel, de 6 anos, coloria o desenho de uma personagem de filme animado. Ele é filho de Priscilla Rafaela Pires, de 29 anos, irmã de Patrícia, e também está em uma escola municipal. Mais velho, Gustavo, de 8 anos, expressa em palavras seu sentimento. “Não gosto de faltar aulas e o que mais gosto na escola é pintar e aprender o alfabeto”, diz o menino, que quer ser médico no futuro.

Firmeza e colaboração

Ao conversar com as crianças que recebem os materiais, o homem, que aparenta ter pulso firme, é enfático sobre a necessidade de um bom desempenho nos estudos. “Eu falo sempre que é preciso estudar. Sem estudo, não adianta ter bicicleta ou querer namorar”, afirma.

De acordo com ele, que diz trabalhar no acolhimento de pessoas carentes há 40 anos, a colaboração dos próprios beneficiados pelo projeto possibilita que mais pessoas sejam alcançadas. “As mães são tão solidárias que nos avisam que não precisam de uma nova mochila, pois a do ano anterior ainda serve. Elas pegam as listas de materiais das vizinhas e trazem pra gente, para distribuirmos para todo mundo no setor”, relata.

Lista de materiais

No primeiro dia de aula, segundo a mulher, uma lista de materiais que serão utilizados pelo aluno em sala é entregue aos responsáveis. A obrigatoriedade da aquisição não seria explícita, mas ficaria à mostra no decorrer das atividades, conta ela, quando o desenvolvimento do aluno e sua participação seria dificultado ou impossibilitado por não possuírem o que é utilizado. “A maior dificuldade é sempre conseguir esse material. Sempre pedem pra tentar conseguir tudo o que está na lista. Muitas vezes, (os profissionais) não entendem que não temos condições para comprar nem um lápis”, lamenta a mãe.

Cinco filhos e uma filha de Patrícia estudam em unidades da rede pública municipal de Ensino de Goiânia. Eles moram no Setor Buena Vista, na Região Oeste da capital, mas as escolas que alguns deles frequentam ficam em bairros vizinhos. Gestora de tais instituições, a Secretaria Municipal de Educação e Esporte (SME) de Goiânia nega que exista a definição de lista de material escolar a ser adquirido. Segundo a pasta, a cobrança de tais itens para alunos da rede é proibida, ainda que mães relatem situação distinta. Ainda em férias, os alunos não receberam listas neste ano.

“A gente orienta que as escolas peçam apenas o material de uso pessoal do aluno, principalmente em CMEIs (Centros Municipais de Educação Infantil), onde é preciso levar toalha e itens de higiene. É a única coisa. Não vai lista e não tem exigência”, garante Maria Aparecida Barbosa, superintendente de Administração e Finanças da SME.

Prefeitura e Estado não oferecem kit

De forma distinta do que ocorre em outros municípios do País, onde kits de material escolar são entregues a alunos pela prefeitura, a rede municipal de Ensino da capital não dispõe de fornecimento parcial ou integral desses itens aos estudantes. De acordo com a superintendente de Administração e Finanças da Secretaria Municipal de Educação e Esporte (SME) de Goiânia, Maria Aparecida Barbosa, a ação está nos planos da atual gestão, mas deve ser executada apenas no futuro. Segundo ela, a prioridade atual é a ampliação do acesso à Educação Infantil.

Contudo, a superintendente garante que as escolas devem estar preparadas para atender demandas de estudantes que não têm condições de adquirir o que for necessário. “Há sempre recursos para a manutenção e o desenvolvimento de ações pedagógicas, principalmente para esse tipo de emergência”, diz ela. “Caso o aluno não consiga levar nem sequer o material básico de uso pessoal, a escola acolhe da mesma forma. Não pode ser considerado um impedimento para que ele estude”.

Segundo Maria Aparecida, as instituições são orientadas, também, a ofertar o material sem que isso represente um tipo de segregação ou um ato discriminatório. 
Em Goiás, a situação se repete. De acordo com a Secretaria de Educação, Cultura e Esporte de Goiás (Seduce), não há distribuição de material escolar aos alunos da rede pública estadual. Assim como a SME, a pasta diz que os alunos que não possuem o material “são atendidos normalmente em sala de aula, acompanhando as aulas e sendo orientados pelos professores”. Em ambos os casos, há o fornecimento de livros didáticos pelo Governo Federal.

Questionadas sobre quanto custaria fornecer material escolar para os alunos das referidas redes, nenhuma das secretarias respondeu.

Em 2018, segundo dados da SME, a Prefeitura de Goiânia ofertou 103.340 vagas, sendo 32.188 na Educação Infantil e 71.152 no Ensino Fundamental. Já a Seduce informou que a rede contará com cerca de 438 mil alunos em 2019.
 

Projeto Social

Neste ano, um dos projetos realizados na capital e que atenderá estudantes carentes e da rede pública de Ensino será realizado pela Associação Tio Cleobaldo e pelos projetos sociais Pão com Amor e Solidaire. A campanha de arrecadação de materiais escolares foi iniciada há três anos pelo primeiro, tendo sido apoiada, nos anos seguintes, pelos demais.

“Atendemos muitas pessoas em situação de rua e até gerações inteiras de famílias. São os filhos das dificuldades. Pessoas desprezadas”, diz Cleobaldo Martins de Oliveira, o Tio Cleobaldo, que também é conhecido pelo trabalho de distribuição de marmitas pelas ruas da capital. Segundo ele, há, atualmente, cerca de 50 voluntários envolvidos nas atividades.

A intenção é atender mais de 400 crianças e adolescentes, principalmente nos municípios de Goiânia e Aparecida de Goiânia. As doações serão recebidas até o dia 23 de janeiro e a entrega deve ocorrer nos dias 26 e 27.