“Ele sentia uma felicidade muito grande quando via seu nome no jornal, falando das conquistas importantes que havia obtido.” A lembrança é de Tonny Magalhães, irmão daquele que é considerado o maior nome do ciclismo em Goiás, Wanderley Magalhães. Essa felicidade era própria de um atleta que começou sua carreira brincando na rua, despretensiosamente. “Meu pai, quando éramos meninos, deu uma bicicleta de presente de Natal para cada irmão, eu o Wanderley e o Paulo”, relata Tonny. “A partir dali, a gente sempre arrumava um motivo para pedalar por aí.”

O vírus de competição foi inoculado na família também por acaso. “Alguns amigos nossos nos chamaram para um passeio ciclístico na Vila São José. Quando chegamos lá, era um campeonato, em que o pessoal dava três voltas em um circuito. Resolvemos participar mesmo assim. Foi dessa forma que começamos, picados pelo mosquitinho da bicicleta”, brinca Tonny. O pai dos três rapazes gostou da novidade e passou a incentivá-los. “Ele dizia sempre que poderíamos fazer o que escolhêssemos, mas que tínhamos que fazer bem-feito, fosse o que fosse.”

Essa determinação foi levada a sério por todos e não demorou para que os três irmãos começassem a chamar a atenção nesse universo esportivo. “Foi uma época muito difícil no Brasil para praticar o ciclismo e começamos a entender que precisávamos buscar um auxílio fora, inclusive em termos de equipamento”, conta Tonny. Com apenas 15 anos de idade, Wanderley Magalhães passou a se destacar, participando de provas fora de Goiás e obtendo resultados surpreendentes. “Ele foi campeão de uma temporada em que disputou 38 provas num intervalo de 3 meses”, lembra o irmão.

Esses feitos se multiplicaram em uma carreira que levou o ciclista goiano ao topo. Aos 16 anos, já integrava a Equipe Caloi, a mais cobiçada do ciclismo brasileiro na época. Durante 15 anos, ele esteve onde todo esportista da modalidade gostaria de estar. Entre suas conquistas estão a de tricampeão da prova 9 de Julho, em São Paulo, a mais importante do calendário nacional. Também faturou o primeiro lugar em uma edição do Rutas de América, competição que reúne atletas de todo o continente, e do GP Hollain, na França. Foram mais de 70 vitórias no Velho Continente.

Seus maiores êxitos, porém, foram em jogos internacionais. No Jogos Pan-Americanos de Havana, em Cuba, em 1991, ele subiu ao pódio com a medalha de bronze. Nessa época, Wanderley já havia sido eleito o melhor ciclista estrangeiro em atividade na Europa – ele e seus irmãos assinaram contratos para correr em equipes da Bélgica, por exemplo – e tinha uma Olimpíada no currículo, a de Seul, em 1988. Aqueles anos marcaram o auge do atleta. Em 1992, ele pôde participar de mais uma edição dos Jogos Olímpicos, em Barcelona, mas com um gosto ainda mais especial.

“Minha maior lembrança dele foi aquela experiência em Barcelona, em que estávamos juntos vivendo aquele sonho”, diz, nostálgico, o irmão Tonny. Ambos se classificaram para competir entre os melhores do mundo e levaram o pai junto, já que Ancelmo Fernandes Azevedo, influenciado pelos filhos, passou a respirar o esporte. “Nós dois, irmãos, naqueles dias de Vila Olímpica… Nossa, foi inesquecível.” E não pensem que foram a passeio. Em Barcelona, Wanderley Magalhães obteve o melhor resultado da história do ciclismo nacional em Olimpíadas, ficando em 12º lugar.

O menino que gostava de bicicletas e tornou-se um grande campeão, chegando a disputar 11 campeonatos mundiais da modalidade, aposentou-se em 1994 e passou a ser um incentivador do esporte. Ao lado dos irmãos, criou provas e eventos para estimular a paixão pelo pedal em novas gerações. Esse trabalho foi precocemente interrompido pela descoberta de um câncer, doença contra a qual lutou por um longo período, até falecer em 28 de março de 2006. “O mais legal é que ainda lembram muito dele. Fizemos muitos amigos no mundo todo. Isso é o que vale”, consola-se Tonny.