Ficaram famosas as viagens que Vicente Rebouças Câmara, por estradas precárias e em condições até temerárias, fazia pelo interior goiano levando notícias. Era literalmente isso. Quando ele e seus irmãos Joaquim Câmara Filho e Jaime Câmara fundaram o jornal O Popular, coube a ele percorrer Goiás de ponta a ponta atrás de assinaturas para o informativo, encontrando clientes, anunciantes e estabelecendo rotas de distribuição. Mesmo que fosse em carrocerias de caminhão, Vicente Rebouças ia aos rincões mais longínquos, sem desanimar.

Vicente Rebouças, e aqui chegando, teve importante participação no crescimento da empresa. Homem simples, era um negociante nato e tinha o dom da boa prosa. Não havia ninguém estranho para esse homem criado no Nordeste. Gostava de estar no meio dos funcionários, interagindo com todos, sem distinção. Nunca quis ocupar cargos oficiais e não era muito visto em eventos sociais. Esses papéis couberam aos dois irmãos de quem era sócio. Seu habitat era outro e nele transitou com desenvoltura ímpar.

Quando se embrenhava Goiás adentro, compreendia como poucos o espírito de quem encontrava. Não havia tempo ruim em seu caminho. Preguiça era uma palavra que desconhecia. Isso foi crucial para fazer do jornal da família um informativo conhecido em cada região goiana, mesmo naquelas em que um veículo de comunicação jamais havia chegado antes. As populações que estavam em áreas mais isoladas passaram ser integradas a um novo sistema de informações, a novas lógicas de consumo, a dados inéditos sobre a própria terra em que viviam.

Essas incursões de Vicente Rebouças pelas áreas mais remotas de Goiás também possibilitavam que o próprio jornal pudesse conhecer melhor o Estado que se propunha a retratar. Ir ao lugar não deixava de ser uma espécie de reportagem sobre os pontos visitados, uma maneira de ver e sentir os problemas dessas regiões, os anseios que brotavam da população. Vicente, ótimo ouvinte e bom de conversa, tirava essa temperatura, sentindo na pele os problemas de infraestrutura, como a ausência de estradas em boas condições e outros benefícios, males que acometiam um Estado ainda atrasado.

Quando estava em Goiânia, ele se hospedava no Grande Hotel, onde passou a morar. Depois mudou-se para a viela da Rua 8, no Centro, residindo ali até sua morte, em 4 de fevereiro de 1973, aos 76 anos de idade. A jornalista Cileide Alves, que está realizando um trabalho biográfico sobre Joaquim Câmara Filho, em sua apuração ouviu alguns testemunhos de parentes que demonstram o quanto Vicente Rebouças, com seu jeito espontâneo, sabia conquistar as pessoas. “Os sobrinhos adoravam aquele tio porque ele distribuía ingressos de cinema para quem o ajudasse nos trabalhos no jornal”, revela.

Solteiro, Vicente Rebouças não teve filhos e sua parte na empresa foi distribuída entre os irmãos e sobrinhos após sua morte. Todos testemunharam o quanto de sua vida ele dedicou ao jornal, indo para a linha de frente, inclusive, na gráfica, onde ajudava os funcionários a imprimir O Popular. Muitas vezes, com seu temperamento expansivo, incumbia-se de negociar com fornecedores e distribuidores, sendo um persistente cobrador de dívidas e compromissos não cumpridos. Para uma empresa iniciante, era essencial não levar calotes. E Vicente Rebouças não deixava isso acontecer.

Vicente Rebouças foi um dos últimos dos filhos do casal Joaquim Rebouças de Oliveira Câmara e Maria Melquíades de Miranda Câmara, conhecida como Dona Iaiá, a chegar a Goiás, ao lado da irmã Tacy, a chegar a Goiás. Eles vieram em 1938 para Goiânia. Joaquim Câmara havia sido nomeado prefeito de Pires do Rio por Pedro Ludovico. Foi também naquele ano que O Popular ganhou as ruas. Ano em que Vicente Rebouças encontrou um novo objetivo maior em sua vida, ao qual se dedicou intensamente até o fim.