Chamado a uma audiência, Venerando de Freitas Borges aguardou por cerca de 15 minutos até seu anfitrião aparecer. “Trajava terno de linho 120, sapato branco com biqueira marrom e me perguntou: ‘Por acaso é o senhor o professor Venerando?’ Sem rodeios, como é do seu feitio, declarou Pedro Ludovico: ‘Chamei-o aqui para convidá-lo para o cargo de prefeito de Goiânia. Aceita?’” E assim ocorreu o primeiro encontro entre o criador da nova capital e o homem que iria administrá-la pela primeira vez. Eles ainda não se conheciam pessoalmente, mas escreveriam a história juntos.

A narrativa dessa reunião foi feita pelo próprio Venerando de Freitas Borges em edição de O Popular do dia 24 de outubro de 1975. Na ocasião, Goiânia completava 42 anos e as memórias dos bastidores de sua fundação permaneciam vivas para seu primeiro prefeito. Ao ouvir a pergunta se aceitava a incumbência, Venerando respondeu ao interventor de Goiás com sinceridade. “Depende”, disse. “Não sou político e preciso saber as condições”, explicou. “Tenho uma”, rebateu Pedro Ludovico. “Não roube na Prefeitura.” Ao que Venerando replicou: “Não gosto de ladrão.”

“Meu avô tinha esse estilo franco”, reforça o neto de Venerando, Guilherme de Freitas Souza. “Ele não aceitava cabresto e deixou isso claro logo no primeiro contato com Pedro Ludovico. Mas também era um homem extremamente leal. Depois os dois se tornaram amigos e todos os dias meu avô ia tomar café com o doutor Pedro na casa dele. Nos tempos da ditadura militar, que chamavam de revolução, ambos permaneceram solidários ao Juscelino Kubitschek e gostavam de falar mal de quem detinha o poder na época.”

Quando era jovem, Guilherme conviveu bastante com o avô e o acompanhava em algumas viagens. “Nós conversávamos muito. Ele gostava de enfatizar que tinha um sono tranquilo quando colocava a cabeça no travesseiro.” Mesmo diante das dificuldades dos primeiros tempos, Venerando não esmoreceu. “Não havia financiamento para construir Goiânia. Fizeram com o que havia no caixa do governo. E era uma dificuldade imensa para conseguir mão de obra. Meu avô, como prefeito, morava em um casebre nas margens do córrego Botafogo e despachava debaixo de uma árvore.”

A carreira política, porém, não era o maior orgulho de Venerando de Freitas Borges. “Ele se realizava como professor. Ele lecionou contabilidade na Escola Técnica de Comércio de Goiás. Tanto que todos o chamavam de professor, mais que de prefeito”, aponta Guilherme. Ele diverte-se com outra curiosidade do avô. “Ele detestava homem que pintava o cabelo. Acreditava que a pessoa devia se orgulhar dos cabelos brancos que tinha. E quando via um conhecido que havia feito isso, expressava sua desaprovação na hora, na cara da pessoa. Não deixava para depois.”

Cordial e contundente, Venerando de Freitas Borges angariou enorme respeito junto à população, coisa rara hoje em dia quando se fala de políticos. Sua faceta pública era só uma de um homem surpreendente. “Meu avô jogou bola”, revela Guilherme. “Claro que fez isso num âmbito amador. Foi um dos fundadores do time do Goiânia Futebol Clube e jogou num tempo em que o juiz ia para o campo com revólver na cintura para se proteger”, contextualiza. A grande arma de Venerando sempre foi, por outro lado, a firmeza de caráter, expressa sem escândalos.

Dos seis filhos que teve, viu cinco partirem. “Essas perdas abalaram muito meu avô. Um deles morreu com 23 anos. Era um gênio. Outra foi vítima de câncer com apenas 32 anos de idade. Até um genro de que ele gostava muito também morreu em um avião que desapareceu no Oceano Pacífico. No fim, ele ajudou a criar duas de suas netas”, relata Guilherme. Isso o ensinou a não valorizar demais coisas pequenas da vida. Na política, por exemplo, era um conciliador. Sabia que as disputas eram vãs, que no final não tinham tanto sentido. As pessoas, sim.