Os salões da antiga Igreja da Boa Morte, hoje transformada em um dos museus mais visitados da cidade de Goiás, estão povoados de grandes estátuas de madeira e gesso atribuídas a um artista plástico sobre o qual paira uma aura de mistério. José Joaquim da Veiga Valle, que nasceu em Pirenópolis, viveu entre os anos de 1806 e 1874 e por muito tempo foi quase um anônimo. As obras sacras que teria esculpido eram conhecidas, mas não ganhavam a devida atenção, espalhadas em altares de igrejas de Goiás e Mato Grosso. Isso começou a mudar em 1940.

Neste ano, o pintor carioca João José Réscala redescobriu Veiga Valle como um dos grandes expoentes do que a crítica especializada chama de barroco tardio. E assim, aquele homem sobre o qual há pouca documentação e que não foi tão incensado assim em vida por seu trabalho, tornou-se um dos pioneiros das artes plásticas em Goiás e louvado como exímio santeiro. “Ele é o principal escultor do século 19 que temos”, afirma Elder Camargo dos Passos, especialista na obra do artista e autor do estudo Veiga Valle – Seu Ciclo Criativo. “Antes dele, quase não havia nada.”

O Museu da Boa Morte tem o maior acervo do grande representante do barroco em Goiás, com 35 esculturas e uma pintura. Autodidata, ele se dedicou a esculpir, sobretudo, santos, sob forte influência da arte portuguesa. No ano 2000, uma mostra em São Paulo, com cenografia de Bia Lessa, mostrou para o Brasil o estilo deste homem que, tudo indica, levou uma vida simples. Em entrevista a O Popular naquela ocasião, Elder Camargo explicava que a técnica do artista plástico era complexa, unindo diversos elementos em suas composições.

“Nos mantos dos santos, o artista imprimia uma profusão de detalhes e uma rica policromia, inspirado nos desenhos da prataria e das louças francesas e inglesas e nos paramentos e nos tecidos adamascados vindos da Itália, de Portugal e da Espanha para as igrejas de Vila Boa, onde ele passou a maior parte de sua vida”, indicava. “Após esculpir a peça, ele aplicava uma base de gesso e em cima dela colava folhetas de ouro importadas da Alemanha. Sobre a base dourada, era feita a aplicação das camadas de tintas na coloração que desejava”, acrescentou o especialista.

Não se trata, portanto, de uma produção artística instintiva, como às vezes é dito sobre o seu trabalho. “Sua arte tinha uma singularidade muito forte”, defende Elder. Atributos que encantaram o público na mostra paulista, que quase não aconteceu por conta de uma série de polêmicas que eclodiram na época. A retirada, mesmo temporária, das imagens sacras das igrejas onde estavam na cidade de Goiás não agradou grupos de católicos, que protestaram. Algumas das peças foram excluídas da exposição em consequência dessa pressão.

Uma das características que fazem as esculturas de Veiga Valle serem tão especiais é sua técnica de modelagem. Em seu livro sobre o artista do século 19, Elder Camargo salienta que boa parte das obras são em cedro, uma madeira considerada macia, perfumada e durável. Ao invés de trabalhar sobre um tronco único, o que seria mais comum, Veiga Valle preferia lidar com peças menores, com as quais fazia braços e pernas de suas estátuas para depois articulá-las, encaixando umas nas outras. Isso, segundo o pesquisador, revela um possível conhecimento de anatomia por parte do escultor.

Todos esses elementos incluíram o nome de Veiga Valle no rol dos grandes artistas sacros nacionais. As pesquisas realizadas até agora apontam para a influência de um religioso sobre o trabalho do artista. Algumas versões apontam para o padre Manoel Amâncio da Luz, outras para o sacerdote José Joaquim Pereira da Veiga. Mesmo envolvido com uma atividade marginalizada em seu tempo, Veiga Valle teve prestígio suficiente para desposar a filha do presidente da província. Com Joaquina Porfíria, ele teve 8 filhos. Sua antiga residência, no Largo do Rosário, ainda pertence à família.