“Quando Goiás ganhou o título de reconhecimento de Patrimônio da Humanidade, foi uma gritaria por todo lado. A gente aqui na pousada gritava tanto de alegria. Tinha foguetes pela cidade inteira, os sinos de todas as igrejas tocando. Foi uma beleza.” Esta é uma das memórias mais preciosas de Antolinda Borges, mais conhecida como Tia Tó. Aliás, poucas figuras são tão conhecidas na antiga Vila Boa quanto Tia Tó. Ela parece onipresente pelas ruas de pedra, entre os casarios de fachada colonial e quintais a perder de vista. Onde se vá na cidade de Goiás, alguém dá notícia dela.

Essa popularidade se deve a uma intensa atividade na antiga capital goiana. A conquista do título de Patrimônio da Humanidade, concedido pela Unesco, foi apenas um dos momentos em que a biografia desta mulher de 86 anos de idade se confundiu com a história do lugar em que passou a morar quando era apenas uma criança de 4 anos. “Eu nasci em Itaberaí, mas vim para cá muito cedo. E não sei o que me faz ter esse amor todo pela cidade, mas eu tenho. Quando fico dois ou três dias fora, já é sofrimento para mim. Digo que as pedras de Goiás são os filhos que eu não tive.”

Tia Tó chegou a Goiás em um momento traumático para a antiga sede do poder estadual. O ano era 1936 e a cidade penava a perda de prestígio, de recursos, de quase tudo. A transferência da capital para uma Goiânia em construção estava em pleno vigor e eram muitas as pessoas que abandonavam a terra de tantas tradições para tentar a sorte e correr atrás de oportunidades nas proximidades de Campinas, lugar escolhido por Pedro Ludovico para concretizar seu maior projeto. A família de Antolinda Borges trilhou o caminho inverso.

“Goiás foi muito massacrada naqueles tempos. A mudança da capital foi terrível em vários sentidos. A cidade começou a ser menosprezada e isso demorou bastante para mudar”, analisa Tia Tó. Ela participou ativamente da luta para reverter esse quadro. Com personalidade forte e espírito inegável de liderança, foi uma das articuladoras para fazer da Procissão do Fogaréu, ritual da Semana Santa que recolocou Goiás no mapa nacional das celebrações do País, uma atração religiosa e turística. Ela costuma organizar os farricocos no Quartel do 20 e até passar seus trajes coloridos.

Esse empenho vem de longe. Ainda nos anos 1950, Tia Tó comemorou o tombamento da cidade de Goiás como Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Essa medida foi um divisor de águas, já que possibilitou uma maior presença de órgãos de preservação por lá e protegeu centenas de imóveis de uma destruição quase certa. “Ali começou esse processo de revitalização de Goiás, mas ainda bem devagar.” Tia Tó sabe que só no final da década de 1990, sua amada Goiás ganhou mais corpo para romper o novo século como uma joia do passado cravada no Cerrado goiano.

Iniciativas como a criação do Festival Internacional de Vídeo e Cinema Ambiental, o FICA, festivais literários e gastronômicos, apresentações de concertos de câmara e de música sacra nas igrejas centenárias, obras de recuperação de locais históricos, mudança na iluminação pública e campanhas de divulgação das belezas locais fizeram toda a diferença. Além disso, a fama nacional da poeta Cora Coralina e sua charmosa Casa da Ponte, a revitalização de museus e o apoio a festejos, como o Carnaval de Marchinhas, deram maior movimento às ruas estreitas de Vila Boa.

Tia Tó, de maneira mais clara ou mais discreta, esteve presente em cada uma dessas ações. Ainda hoje, em uma idade em que a maioria das pessoas já se aposentou, ela não pensa em parar. Continua administrando o Museu da Boa Morte, um dos mais visitados da cidade e que abriga o maior número de obras do artista plástico Veiga Vale, e comanda uma pousada requisitada da cidade histórica. Seu olhar também permanece atento. “O Rio Vermelho está cheio de entulho e pode dar outra enchente como aquela de 2001, que destruiu tanto.” É Tia Tó cuidando de sua paixão.