“A primeira vez que estive nas páginas de O Popular foi ali por 1966, 1967, quando eu desenhava para o jornal o personagem Zorro.” As lembranças de Siron Franco em relação ao veículo de comunicação que nunca deixou de acompanhar sua carreira datam de uma época em que o artista plástico era apenas um adolescente, dando os primeiros passos em sua arte. “Depois, fazia retratos de pessoas da sociedade para a coluna social da Maria José”, recorda, lembrando-se de uma das jornalistas que ajudaram a estabelecer esse espaço na imprensa goiana. “Pô, faz muito tempo.”

É, Siron, faz muito tempo. Mas esse tempo também transformou os sonhos do rapazote nascido na cidade de Goiás e criado no Bairro Popular, em Goiânia, em realidade. Reconhecido nacional e internacionalmente por seus trabalhos, Siron Franco é grato aos estímulos recebidos naquela época. Época em que conheceu Célia Câmara – esposa de Jaime Câmara –, mecenas e articuladora cultural que fez história. “Ela teve um papel muito importante para toda uma geração. E O Popular esteve sempre conosco. Em 1968, ele noticiou meu primeiro prêmio, conquistado na Bahia”, relembra.

Quatro anos depois, em seu Suplemento Literário, O Popular dedicou uma ampla reportagem ao trabalho do jovem Siron Franco. “O artista precisa acreditar em sua realidade”, dizia ele. Um lema que levou para toda sua trajetória. Combativo, ostentou bandeiras muito antes de se tornarem palavras da moda. No meio ambiente, falou, por meio de suas telas e esculturas, da devastação do Cerrado. No campo dos direitos humanos, denunciou o extermínio da cultura indígena e a violência urbana. Cerrou fileiras contra o preconceito gerado pelo acidente com o césio-137, em Goiânia.

Em sua opinião, é impossível não vincular a arte com a sociedade, em seus desafios, suas mazelas e suas virtudes. “Hoje, por exemplo, vivemos um período de trevas. Houve um retrocesso. Falta mobilização contra isso”, alega. “Eu conheci grandes pensadores deste País, convivi com gente do porte de Darcy Ribeiro e tantos outros. Hoje não há mais pessoas assim. Nunca vi este País como agora. Falta o tripé básico: educação, saúde e justiça”, critica. Opiniões que são a cara de um homem que nunca se furtou a participar do debate, nem sempre com intervenções populares.

Provocar, aliás, é parte de seu perfil. Sua arte é, por essência, incômoda, levando a refletir sobre questões não muito fáceis. Ao longo da carreira, em grandes exposições ou em instalações colocadas em espaços públicos, Siron se posicionou como alguém que tem o que dizer e merece ser ouvido. Algumas de suas séries ficaram notórias pelo poder de traduzir inquietações, desejos, medos e esperanças. Na série Césio, mostrou o horror da radiação e a dor de suas vítimas. Na série Peles, abordou a sensualidade de corpos e texturas. Em Fábulas do Horror, o terror é o grande mote.

Aos 70 anos de idade, todas essas fases daquele que é o artista plástico goiano mais conhecido e prestigiado na atualidade foram registradas pelas páginas do jornal que, ele mesmo reconhece, integra sua vida profissional e pessoal. “A arte em Goiás produziu gente de grande talento no decorrer do tempo e O Popular teve muito a ver com isso, sempre incentivando todos nós”, elogia. Artista cuja marca maior é a inovação formal, Siron Franco é múltiplo. Uma de suas produções mais representativas é a série de quadros Metamorfoses. Mudar para sobreviver.

Desde a conquista de um prêmio na Bienal de Arte de São Paulo, em 1975, que lhe deu a possibilidade de morar e aprimorar sua técnica no exterior, o nome Siron Franco não deixou mais de figurar entre os mais destacados nomes da arte brasileira contemporânea. Suas obras já estiveram nos principais museus do País e em alguns templos sagrados da arte no exterior. Seu refúgio, porém, continua a ser o famoso ateliê que montou em Aparecida de Goiânia, onde experimenta e cria. Um processo ininterrupto, profícuo, compromissado com a revolução de si mesmo.