O pai, João Teixeira Álvares, era membro da Academia Nacional de Medicina. Isso orientou a carreira do filho, Pedro Ludovico, nascido na cidade de Goiás em 1891. No início do século 20, ele foi para o Rio de Janeiro estudar a profissão que lhe era destinada e abraçou a medicina em seu retorno a Goiás, em 1916, quando passou a morar em Bela Vista. Mas havia um outro vírus na história e que tinha pouco a ver com bisturis e esparadrapos. Era o vírus da política. Ao adquiri-lo, a vida do jovem Pedro nunca mais seria a mesma. Nem a de Goiás. E ele daria vida a Goiânia.

Casando-se com Gercina Borges, filha do senador estadual Antônio Martins Borges, um poderoso fazendeiro do sudoeste de Goiás, Pedro se transferiu para Rio Verde, onde fez oposição à oligarquia caiadista que dominava a política estadual na República Velha. “A dissidência surgida em Rio Verde iria extravasar do âmbito regional para o estadual. Não se tratava de figura de retórica a afirmação dos oposicionistas de que estavam dispostos a combater o caiadismo, 'em caso extremo, pelas armas'”, escreve a historiadora Lena Castello Branco no livro Poder e Paixão: A Saga dos Caiado.

Entre os anos de 1924 e 1930, Pedro Ludovico liderou intensa articulação contra o poderio dos Caiado, criando jornais que atacavam o governo e planejando ações dentro e fora do Estado. Segundo um dossiê da Fundação Getúlio Vargas, Pedro manteve contatos, em 1929, com líderes daquela que seria a Revolução de 1930, como o governador de Minas Gerais, Antônio Carlos de Andrada. Quando a revolta contra o governo de Washington Luís estourou, ele seguiu para Minas e ao retornar a Rio Verde, foi preso. Conduzido à cidade de Goiás, o destino lhe fez uma surpresa.

Getúlio Vargas havia conquistado o poder, marchando sobre a capital, Rio de Janeiro. Exilado, Washington Luís era a imagem do fim da República Velha. Um fim que também significava o término do ciclo dos Caiado. O prisioneiro Pedro Ludovico tornara-se, assim, o novo líder goiano, efetivado como interventor do Estado por Getúlio. Era a senha para implementar seu mais ambicioso projeto. Pedro tiraria a capital da cidade de Goiás, construindo uma nova. Em 1933, lançou a pedra fundamental de Goiânia, após mexer minuciosamente as peças políticas no tabuleiro.

Esvaziar a antiga Vila Boa de poder, ainda que fosse sua terra natal, era fundamental para Pedro Ludovico. Ele desidratava as oligarquias, que continuavam fortes economicamente. Escolher os arredores de Campinas para erguer Goiânia, preterindo Bonfim (hoje Silvânia), foi uma estratégia para não dividir o poder com o então bispo Dom Emanuel Gomes de Oliveira, que havia mudado o bispado para lá. Segundo o promotor e historiador Jales Guedes, pesquisador dos detalhes da mudança da capital, Pedro implantou um grande personalismo em sua gestão. Ele era o poder.

E o foi por muitas décadas. O fundador de Goiânia governou o Estado até 1945, caindo junto com seu protetor, Getúlio Vargas. Mas logo passou a ganhar eleições para o Senado, mantendo  influência política e ajudando a eleger um sobrinho e um filho para o cargo que ocupara. Um dos fundadores do Partido Social Democrático em Goiás, só perdeu o status de cacique político quando seu mandato foi cassado pelo regime militar, em 1968, no Ato Institucional Nº 5. Regime que já havia derrubado do poder Mauro Borges, seu filho, em 1964.

O aura conquistada como fundador de Goiânia nunca desapareceu. A casa de Pedro Ludovico, na Rua Dona Gercina Borges, no Centro, hoje um museu, era polo de encontros políticos, de conversas e homenagens. Quando saía à rua para ir ao cinema, uma predileção sua, Pedro era parado para ser cumprimentado. Na garagem, ainda está seu velho Chevrolet com ares de desbravador. Faz justiça ao dono, um político personalista, mas corajoso. Goiânia existe também por esse destemor. Pedro, montado em seu cavalo no monumento que há na Praça Cívica, nos lembra disso diariamente.