Em seu casarão colonial na cidade de Goiás, onde depois também funcionaria o Fórum local, Maria Angélica da Costa Brandão recebia artistas para disputados recitais e saraus concorridos. A nata da cultura e da intelectualidade daqueles tempos acorria à residência em que se respirava arte. Mas se você morasse na antiga capital goiana naquela época, possivelmente não saberia dizer quem era Maria Angélica. Todos a conheciam por Nhanhá do Couto. A esposa do odontólogo Luiz do Couto Brandão foi uma figura proeminente na sociedade local e uma pioneira em muitos sentidos.

“Nhanhá era filha de um maestro da igreja-mor de Ouro Preto, em Minas Gerais. Ela tinha a musicalidade no DNA”, diz Annunziata Spencieri, bisneta da musicista e que levou adiante essa tradição familiar. Uma das netas de Nhanhá foi a também musicista Belkiss Spencieri, que teve a companhia da avó no período que estudou piano no Rio de Janeiro. “Nhanhá e Luiz do Couto se conheceram na igreja e se apaixonaram. Depois de se casarem, foram morar no Rio de Janeiro, onde tiveram uma primeira filha, que morreu. Deprimido, o casal quis vir para Goiás”, relata Annunziata.

Luís do Couto, que era tio da poeta Cora Coralina, também era um admirador da boa música e fez de tudo para que Nhanhá se sentisse bem na nova cidade, o que de fato aconteceu. Logo ela estava integrada à comunidade, promovendo eventos culturais e agitando um pouco mais a vida artística da antiga Vila Boa. “Havia um movimento interessante. Goiás já tinha pianos, por exemplo. Mas Nhanhá foi muito importante para enriquecer ainda mais esse cenário”, enfatiza sua bisneta. Quando mudou-se para Goiás, em 1901, Nhanhá contava com apenas 21 anos de idade.

Sua presença em Goiás na virada de um novo século teve grande poder simbólico. Além de apoiar fortemente compositores locais, levou conhecimento musical a gerações que não tinham essa oportunidade até então. Fundou grupos escolares e pôde exercer sua outra vocação, a de educadora. Para Nhanhá do Couto, o ensino regular não deveria se dissociar do aprendizado no campo das artes. Um devia correr em paralelo com o outro, complementando-se. Por isso, fez questão de expandir suas iniciativas, levando seus saraus para outras cidades, como Vianópolis e Catalão.

Os eventos promovidos por Nhanhá do Couto, que ela gostava de designar como saraus artísticos, tornaram-se uma tradição na cidade de Goiás. Uma das datas sagradas para essas celebrações era seu próprio aniversário. As pessoas já aguardavam as atrações todo dia 20 de agosto, quando a antiga capital goiana parava em torno dos festejos na casa da aniversariante. Durante mais de duas décadas, a pianista não deixou a vida cultural da antiga Vila Boa parada e foi fundamental para incutir no imaginário local o amor pela música, que tantos frutos renderia posteriormente.

A cidade ficou um tanto órfã quando Nhanhá do Couto, por questões familiares, se transferiu primeiro para Belo Horizonte e depois para o Rio de Janeiro. Sua saída coincidiu com a mudança da capital goiana, que lançou a cidade de Goiás em uma espécie de depressão, sobretudo nos campos cultural e educacional. Em 1938, ela também se mudou para Goiânia, onde morou por 4 anos, antes de fixar residência definitivamente no Rio, onde morreu em 1945. Sua morte, paradoxalmente, levou muitos de seus alunos a conceber projetos em sua homenagem, reavivando a cena artística.

Nhanhá e Luis do Couto formavam um casal à frente de seu tempo. Eles tiveram três filhas, todas com nomes de deusas: Hebe, que se casou com um bisneto do inconfidente Alvarenga Peixoto, Diana, mãe de Belkiss, e Ceres. Em 1980, no centenário de nascimento de Nhanhá do Couto, O Popular entrevistou duas delas, Diana e Ceres. “Mãezinha tinha um espírito muito dinâmico. Era alegre e gostava de trabalhar junto aos jovens”, disseram. Já Belkiss revelou na reportagem o maior sonho da avó. “Ela queria fundar um conservatório de música.” A neta realizou o projeto da avó.