Saindo do Palácio das Esmeraldas, onde acabara de ser forçado a renunciar ao cargo de governador de Goiás para o qual fora democraticamente eleito, Mauro Borges pede calma à multidão reunida na Praça Cívica. Uma resistência armada tornara-se inviável e um banho de sangue precisava ser evitado. Seu governo, marcado por diversas inovações, chegava ao fim sob o peso da mão do governo militar, que o governador aceitara, mas com o qual manteve uma relação tensa. Com aviões dando rasantes sobre Goiânia e tropas de prontidão nos quartéis, era hora de ceder.

A deposição de Mauro Borges em 26 de novembro de 1964 por parte do primeiro presidente do regime militar instituído naquele mesmo ano, o marechal Castelo Branco, é um dos momentos mais dramáticos da história política goiana, protagonizado por uma das figuras mais proeminentes do Estado nas últimas décadas. Filho de Pedro Ludovico Teixeira, homem que incorporou o poder em Goiás durante 15 anos e que nesse período fundou Goiânia, Mauro conseguiu construir seu próprio caminho, não fugindo dos embates e imprimindo um estilo focado no planejamento de suas ações.

Filho e neto de políticos de destaque, esse destino parecia inevitavelmente traçao, mas ele preferiu adiá-lo para seguir carreira no Exército. Na caserna, serviu em postos no Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul (onde conheceu sua futura esposa, Lourdes Estivallet) e no Paraná. Seu prestígio entre os pares de farda crescia, ao mesmo tempo em que ampliava sua formação para a liderança em episódios de crise. Ajudado pelo peso político do pai, conseguiu ser nomeado para a direção da Estrada de Ferro Goyaz, em 1948. Iniciava ali sua primeira briga e demonstração de estilo de gerir.

A sede da companhia é transferida de Araguari (MG) para Goiás, causando descontentamento entre os mineiros, mas selando a consolidação de Goiânia, que passa a ser o ponto final dos trilhos em 1950. A decisão seria fundamental na construção de Brasília, dez anos depois, já que um ramal foi puxado para Anápolis, possibilitando mais facilidade de acesso ao Planalto Central. Não muito tempo depois, ele participaria do chamado “golpe preventivo”, liderado pelo Marechal Lott, para garantir a posse do presidente eleito Juscelino Kubitschek, que desagradava setores militares.

Essa defesa da lei foi uma marca de coerência na trajetória política de Mauro Borges. Eleito governador em 1960, no ano seguinte apoiou a chamada Rede da Legalidade, comandada por Leonel Brizola, então governador do Rio Grande do Sul, para assegurar que o vice-presidente João Goulart assumisse a nação após a renúncia do presidente Jânio Quadros. Sob sua administração, Goiás ganhou uma infraestrutura básica inédita. Seu governo foi marcado pelo planejamento a longo prazo com seu notório Plano MB, inspirado no Plano de Metas de Juscelino Kubitschek.

“Ele fez um governo moderno. Pena que algumas coisas que deixou já desapareceram, mas seu legado é grande para Goiás”, opina o escritor Geraldo Coelho Vaz, que foi chefe de cerimonial do governo de Mauro. Ele estava no Palácio das Esmeraldas quando Mauro Borges recebeu o ultimato para deixar o governo. “Mauro não permitiu que houvesse resistência. Ele não queria sacrificar as pessoas que o apoiavam”, explica. Soube-se, depois, que Mauro previra aquela quartelada e até cogitou comprar armamentos para um possível sítio ao palácio, mas desistiu da ideia.

O golpe militar contra João Goulart havia ocorrido em 1º de abril de 1964, mas Mauro conseguira se equilibrar, obtendo até uma garantia no Supremo Tribunal Federal de que não seria deposto. De nada adiantou diante do endurecimento do regime. Ele e seus assessores foram perseguidos e denúncias foram fabricadas. Com seus direitos políticos cassados, ele ficou sob estreita vigilância. Após a redemocratização, Mauro Borges tentou voltar a ser governador, mas perdeu a eleição de 1986 para Henrique Santillo. Morreu em 29 de março de 2003, aos 93 anos de idade.