Em 1959, Maria Guilhermina ganhou o Prêmio da Bienal de Escultura de São Paulo e ingressou definitivamente no cenário das artes plásticas brasileiras. No ano seguinte, em 2 de junho de 1960, O Popular noticiou mais vitórias dessa mineira de Conquista, que se mudou com toda a família para Goiânia. Seus trabalhos eram premiados em um concurso promovido pela Escola Goiana de Belas Artes, nas categorias pintura e escultura, sendo escolhidos por um júri em que estavam nomes como o arquiteto Elder Rocha Lima, o também escultor Gustav Ritter e o jornalista Ciro Lisita.

Desde então, já se passaram quase seis décadas e ela permanece na ativa. Aliás, mais ativa do que nunca. Aos 86 anos de idade, continua a produzir em um ritmo invejável, em seu grande ateliê ao ar livre, nas margens do Ribeirão João Leite. Um verdadeiro bosque que é seu refúgio. “São duas chácaras que eu comprei do Altamiro de Moura Pacheco”, informa, lembrando um dos pioneiros da nova capital. Primeiro em pedra e desde 1982 também em pau-brasil, ela compõem obras que seduzem. “Tenho cerca de 890 esculturas em madeira e mais de 1.300 em pedra”, espanta-se.

Quem a vê, uma senhora doce e miudinha, não pode suspeitar da força que tem, nos sentidos figurativo e literal. Muitas das esculturas de Maria Guilhermina são de grande porte. “Eu adquiri essa força com a arte. A escultura que está no lago do Parque Flamboyant, por exemplo, pesa 13 toneladas. Quando a pedra chegou, precisamos de um guindaste para colocá-la no ateliê. Quando ficou pronta, outro guindaste precisou içá-la por cima do muro, porque não passava pelo portão de tão grande que era”, recorda. “Às vezes é necessário um aparato especial para esculpi-las.”

As peças menores também têm lugar de destaque, sobretudo a série de pombas da paz estilizadas, uma de suas marcas. “Nunca repeti uma sequer.” Essa experimentação se dá em um ambiente de sinergia com a natureza, onde a artista plástica trabalha em companhia de muitos passarinhos que vão visitá-la enquanto cria. “Achei meu lugar”, define, referindo-se a um pequeno paraíso particular no meio da cidade, que já recebeu visitas ilustres. Oscar Niemeyer, por exemplo, esteve lá três vezes, sempre admirado com as formas sinuosas do trabalho da escultora.

Trabalhos que podem ser contemplados em museus e coleções particulares nos Estados Unidos, Alemanha, Itália. Na França, ela expõe anualmente, sempre com algo novo a mostrar. No Brasil, sua assinatura está nos museus de arte moderna de São Paulo e Rio de Janeiro e em espaços públicos. “Tenho esculturas na entrada do centro de reabilitação, o Crer, do Hospital de Urgências de Goiânia, no Shopping Flamboyant, na Universidade Católica de Brasília, na reitoria da UFG”, menciona, revelando ser uma das artistas plásticas mais requisitadas do mercado.

Em todas elas, o apuro no acabamento é uma constante, mesmo que esse perfeccionismo custe um maior volume de trabalho. Quando esculpe na madeira, Maria Guilhermina não usa máquinas de ar comprimido, por exemplo. Isso exige um esforço manual ainda maior, que ela realiza sem queixas. “Eu fui aprimorando minha técnica com o tempo”, alega. “Eu faço obras no formão e no macete”, assinala. Isso não quer dizer que seja avessa às novidades. “Vistei um ateliê em que tudo é planejado, com máquinas modernas, para facilitar o trabalho do artista. Uma maravilha.”

Em sua longa carreira, Maria Guilhermina já se reinventou algumas vezes. Experimentou materiais, transformou seu estilo, pesquisou, estudou. Isso resulta em um conjunto de obras diversificado e amplo. Durante um período de 12 anos, a escultora e pintora manteve nas páginas de O Popular uma coluna de artes plásticas. Foi uma forma que encontrou de compartilhar suas vivências no universo que tanto domina e que mantém-se exercendo sob a sombra de suas árvores, sob a sinfonia de seus pássaros. Elementos da natureza que Maria Guilhermina sabe explorar tão bem.