Em 26 de outubro de 1987, Goiânia estava de luto e assustada. Em caixões revestidos de chumbo e acondicionados em caixas de madeira de lei, chegavam à cidade os corpos das duas primeiras vítimas fatais do acidente com a substância radioativa césio-137. Eram a menina Leide das Neves Ferreira, 8 anos, e sua tia, Maria Gabriela Ferreira, a pessoa que percebeu que algo muito grave era causado pela substância azul que brilhava no escuro. Foi um dia de horror, em que a dor da perda foi agravada pela ignorância e violência de manifestantes que chegaram a apedrejar o cortejo.

No Cemitério Parque, naquele dia ao mesmo tempo comovente e vergonhoso, uma mulher baixa e com voz aguda tentava, a todo custo, chegar perto do túmulo de concreto construído especialmente para o sepultamento. Afinal, ela tinha o direito de se despedir de sua filha. Parcialmente sedada com remédios para suportar o momento mais difícil de sua vida, Lourdes das Neves Ferreira precisou de escolta policial e da intervenção de autoridades do Estado para chegar perto do caixão, que pesava 700 kg por conta dos materiais de proteção contra a radiação, onde sua filha jazia.

Hoje, aos 66 anos – “mas com cabeça de 18”, como ela brinca –, Lourdes é uma mulher que, mesmo enfrentando suas dores durante todo esse tempo, ainda tem uma saudade imensurável da filha caçula que perdeu. “Quando agora foram os 30 anos do acidente e da morte da Leide, eu até falei com algumas pessoas, dei entrevistas. Mas daí comecei a passar mal. Pensei que ia enfartar e percebi que eu também tinha que cuidar da minha saúde”, relata. Saúde que esteve por um fio naquela sucessão de acontecimentos que marcariam não só sua vida, mas a história da cidade.

“Cada pessoa que teve contato com o césio de alguma forma teve sintomas diferentes. Teve gente que teve dor de cabeça, outros diarreia. Eu tive sangramento.” Mulher de Devair Alves Ferreira, o dono do ferro-velho onde a cápsula de césio do aparelho de radiologia foi definitivamente aberta, Lourdes mantém cristalinas as lembranças do que aconteceu três décadas atrás. “Sou uma sobrevivente”, define-se. E ela está certa. Talvez ninguém tenha estado tão próximo às gramas mortais do césio-137 e tenha escapado de seus piores efeitos quanto esta mãe de outros dois filhos.

“Agora eu tenho 4 netos e 1 bisneta que já tem 11 anos de idade, acredita?” Sim, seus planos de vida são de longo prazo. “Quero ser tataravó”, diverte-se. “Todos os meus netos são de minha outra filha, a Lucélia. O Lucimar, meu filho, não formou família ainda, mas Deus sabe o que faz”, comenta. Lourdes parece incorporar aquele ditado popular imortalizado num samba famoso: Deus dá o frio conforme o cobertor. E o cobertor dessa mulher miudinha mostra-se imenso. Em 2003, ela perdeu o marido para a depressão e o álcool. Devair sucumbiu à tristeza de um passado traumático.

“Com tudo isso, eu sofri, mas também aprendi muito. Esse luto que a gente sente não se acaba, está sempre voltando. Mas eu me sinto fortalecida para continuar, um dia após o outro”, assegura. “Eu brinco um pouco com as pessoas para a vida ficar mais light, né. É preciso.” E quem somos nós para duvidar de alguém que passou pelo que dona Lourdes passou. “Quando eu me lembro da Leide, é uma dor e um consolo ao mesmo tempo. É uma força que eu tenho.” Símbolo da tragédia de Goiânia, o sorriso inocente de Leide das Neves perpetuou-se não só na lembrança de sua mãe.

O Popular vem, nesses 30 anos, acompanhando tudo o que é relacionado ao acidente com o césio-137. De sua descoberta e os primeiros alertas sobre o perigo que ameaçava a cidade, passando pelos trabalhos de descontaminação de áreas atingidas e a construção do depósito dos resíduos radioativos em Abadia de Goiás, até a luta das vítimas (oficiais ou não) por tratamentos e indenizações, o jornal registrou todos os passos deste que foi o maior desastre do gênero no mundo. Em cadernos e reportagens especiais, enfatiza a importância de aprender as lições deixadas pelo césio.