Eles eram jovens em 1970 e todos os sonhos, todas as utopias de um mundo melhor estavam em pleno viço. Nas portas do Palácio La Moneda, sede do governo chileno, milhares de pessoas esperavam a aparição do presidente eleito, o socialista Salvador Allende, que logo saiu na sacada para saudar o povo que o elegera. Nas primeiras filas da multidão, quatro mãos agitavam em direção ao líder político. Duas delas eram chilenas, as de Mitzi Segovia. As outras duas eram brasileiras. Mãos que se agitavam de alegria e pelas quais tanta arte passaria em seus movimentos.

Naquela cena emblemática para a história do Chile, a chilena Mitzi e o pirenopolino (nasceu em Niquelândia por acidente) Joaquim Jayme alicerçavam a parceria de uma vida toda. Em 1971, eles se casaram e passaram a compartilhar sonhos, dificuldades e um amor incondicional à arte. “Ele era simples, risonho, singelo”, caracteriza a viúva, que padece de uma ausência enorme desde 15 de maio do ano passado, quando o maestro de tantas orquestras se foi. “As pessoas não têm noção das vitórias, das lutas, do que passamos em nome de ideais e da cultura. Foi muito duro”, resume.

O enredo dessa trajetória conjunta sempre teve a música como um dos personagens principais. Durante toda sua vida, Joaquim Jayme se destacou por brigar – às vezes brigar muito – pela valorização e a formação de músicos clássicos. “Ele criou duas orquestras, a Filarmônica de Goiás e a Sinfônica de Goiânia, criou o Centro Cultural Gustav Ritter, formou centenas de músicos. E sempre fez isso com um espírito de alegria, tocando nas periferias, levando a música a todos os espaços, a todos os públicos. Sua morte foi uma perda espantosa”, emociona-se Mitzi.

Joaquim Jayme tinha nessa versatilidade um de seus maiores predicados. Compositor, tocava diversos instrumentos e foi um dos maestros mais respeitados do País. Vários de seus alunos conseguiram postos de destaque em orquestras mundialmente conhecidas. Sua importância pode ser medida na criação do Conservatório de Música na Universidade de Brasília. Na sede do Instituto de Artes da UnB, uma placa o homenageia como pioneiro da instituição. “Nosso neto entrou na UnB um mês antes de ele falecer. Hoje, ele gosta de passar e ler o nome do avô nessa placa”, conta Mitzi.

Os interesses do maestro eram vastos. “Ele gostava muito de História, no que a gente dialogava muito, assim como na música, que eu adoro”, relata a viúva. A matemática e a filosofia também estavam em seu radar. Com mestrado em Musicologia na Universidade de Rostock, na Alemanha, e experiências como professor em São Paulo e no Chile, Joaquim Jayme tinha uma formação muito sólida, em vários sentidos. Suas composições iam do piano aos arranjos para coro, de orquestra de cordas a adaptações líricas de obras populares brasileiras que seriam executadas em concertos.

Uma de suas maiores preocupações foi não se mostrar hermético para quem não havia tido a chance de apreciar trabalhos de música clássica. “Ele ficava muito feliz quando fazia apresentações ao ar livre, em parques, na rua. Ele percebia que algumas pessoas não entendiam bem as composições ali apresentadas, mas o que contava era a felicidade que sentiam, já que via nelas o espírito de alegria da música.” Nos 46 anos de casados, Joaquim e Mitzi nunca abandonaram totalmente os jovens que foram naquele Chile de Allende. Preservaram a vontade de falar com o povo por meio da arte.

Quando faleceu, Joaquim Jayme havia iniciado a redação de algumas reminiscências, publicadas no livro Família Jaime/Jayme: Genealogia e História. Esses textos falam um pouco de sua infância e juventude passadas na Goiânia idílica dos anos 1940, seus estudos no Lyceu e no Atheneu Dom Bosco, as memórias de um tempo que ajudou a compor seus afetos. Em muitos domingos, O Popular noticiou que Joaquim Jayme, na Sinfônica, na Filarmônica, no Coro Sinfônico faria recital com entrada franca. Era um convite a ver um artista – e suas mãos que nunca pararam – em ação.