O que o jornalismo e a agronomia têm em comum? Bom, talvez uma das melhores maneiras de responder a essa questão seja consultar a biografia de um homem que soube unir o espírito das duas áreas, cultivando para colher depois. Ele se chamava Joaquim Câmara Filho, um dos fundadores jornal O Popular e da empresa familiar que depois viria a ser o Grupo Jaime Câmara. Sua principal característica era o destemor em abraçar iniciativas que exigiram coragem, enfrentando obstáculos e adversidades diante dos quais a maioria das pessoas recuaria.

Vindo de uma família do Rio Grande do Norte, Joaquim Câmara Filho nasceu em Jardim de Angicos nos últimos instantes do século 19, em 29 de dezembro de 1899. Ao todo, teve 19 irmãos, entre os quais Vicente Rebouças e Jaime Câmara. Câmara Filho, como ficou conhecido, chegou a Goiás em 1928, mas antes fez um longo périplo. A jornalista e historiadora Cileide Alves, que está realizando uma pesquisa biográfica sobre ele, calcula que Câmara Filho tenha percorrido, em suas andanças, quase 6,5 mil km pelo Brasil.

“Isso num tempo em que não havia estradas direito, em que as pessoas viajavam, muitas vezes, em lombo de burro”, ressalta. Indo primeiro para o Recife, onde estudou Direito, esse verdadeiro empreendedor mostrou pendor pela terra a cultivar – e por novas terras a descobrir. Ele ingressou na Escola Superior de Agricultura e Engenharia São Bento. Um curso que só viria terminar em Minas Gerais. Formado na Escola de Agricultura e Pecuária, parte para o Paraná, onde havia maior necessidade de mão-de-obra especializada. Lá, se destaca e consegue um cargo federal.

“Seu destino mudaria depois de encontrar-se com a coluna comandada pelo general Isidoro Dias em Catanduvas (PR)”, informa Cileide. “O general liderara a ocupação de São Paulo contra o governo de Arthur Bernardes, durante a Revolta Paulista de 1924 e depois fugiu para o sul. Diante do cerco das forças legalistas aos revoltosos no Paraná, Câmara buscou refúgio bem longe”, acrescenta a jornalista. Câmara Filho recebeu no Rio de Janeiro, onde se escondera temporariamente, ajuda de um goiano chamado Salviano Monteiro Guimarães, de Planaltina. Goiás acabou sendo seu destino.

“Em 1928, Câmara mudou-se para Santa Luzia (Luziânia). Tornou-se amigo do médico e escritor Americano do Brasil, que escrevia para os jornais Voz do Povo, da cidade de Goiás, e Araguary, do Triângulo Mineiro. Graças a essa amizade o agrônomo tem seu primeiro contato com o jornalismo”, situa Cileide. Na biografia Câmara Filho, Um Revoltoso que Promoveu Goiás, do jornalista José Asmar, são revelados episódios do talento que Joaquim Câmara tinha em colocar fatos em evidência na mídia, o que seria fundamental em seu futuro.

Em 1930, com a eclosão da Revolução que derrubou a Primeira República, Joaquim Câmara lutou ao lado das forças revoltosas e quando elas saíram vitoriosas, foi convidado pelo interventor Pedro Ludovico para trabalhar em Goiás. Começava ali uma amizade que duraria até a morte do jornalista. Em 1932, voltou a pegar em armas, comandando as tropas goianas para combater os paulistas na Revolução Constitucionalista. Anos depois, ao lado dos irmãos Vicente Rebouças e Jaime Câmara,  ele começou a escrever no POPULAR.

Até sua morte precoce, em 1955, Joaquim Câmara foi fundamental para convencer o povo goiano a apoiar a transferência da capital e consolidar a mudança. Ele, que já havia sido prefeito da cidade mineira de Paracatu, também exerceria o cargo em Pires do Rio e Anápolis. Foi ainda diretor do Departamento de Divulgação e Expansão Econômica do Estado. Um homem que soube deixar sua marca.