A alvura da pele mudou de cor várias vezes no decorrer do tempo. Às vezes ela era de um vermelho intenso, castigada pelo sol inclemente do interior brasileiro. Às vezes ficava mais parda, nos longos períodos em que cuidava da revelação do material que captara. Às vezes ganhava as tonalidades da terra, com a qual costumava se misturar para senti-la melhor. Salpicado de barro ou coberto de poeira, o documentarista, cinegrafista e fotógrafo Jesco von Puttkamer não media esforços para estar onde acreditava que deveria estar, para adicionar ao seu acervo uma imagem a mais.

Ninguém foi tão feliz no registro de um período crucial do Brasil quanto este alemão nascido no Rio de Janeiro em 1919. Filho do alemão Wolf Heinrich von Puttkamer com a brasileira Karin Holm, Jesco teve uma formação irretocável na Alemanha e voltou ao Brasil após a Segunda Guerra Mundial, após toda a Europa sofrer os horrores do nazismo. Em Goiás, aportou em 1948, época em que o Estado buscava gente especializada para suprir suas deficiências em vários setores. Logo foi designado para debater imigração e colonização em nome do Estado no Itamaraty.

Sua maior contribuição ainda estava por vir. Depois de chegar a vender frutas em um entreposto atacadista que existia no Setor Bueno – ele mesmo as produzia em uma chácara que tinha na região –, Jesco foi acompanhar, no final dos anos 1950, a construção de um novo Brasil. No canteiro de obras de Brasília, mostrou todo o seu talento como fotógrafo e documentarista. O banco de imagens que deixou sobre o nascimento da nova capital federal no Cerrado goiano é único. Esse trabalho o levou a integrar-se aos projetos Marcha Para o Oeste e Operação Bananal.

Com essas novas funções, Jesco participou de dezenas de expedições pelo interior do Brasil ao lado de indigenistas, como os irmãos Villas-Bôas, que buscavam estabelecer e estreitar contatos com diversos povos indígenas. Esses encontros foram brilhantemente documentados por ele. “A obra de Jesco revela arte, poesia, sentimentos e fatos”, resume Maria Eugênia Brandão, coordenadora do Núcleo de Documentação Audiovisual do Instituto Goiano de Pré-História e Antropologia da PUC Goiás. Esse espaço guarda todo o legado de Jesco, que doou seu acervo para consultas e pesquisas.

É um patrimônio de valor incalculável. Mais de 10 mil páginas de diários e anotações e cerca de 200 mil fotos, além de inúmeros filmes, integram a mais completa coleção existente sobre os contatos do homem branco com os indígenas brasileiros. “O legado é grandioso em termos qualitativos e quantitativos. Ele capturou imagens fotográficas em diferentes suportes. Testemunhou momentos históricos da política indigenista brasileira e fotografou com obsessão o índio brasileiro em sua originalidade cultural”, observa Maria Eugênia.

Em reportagem publicada em O Popular no dia 3 de dezembro de 1978, quando Jesco fez a doação do material para a UCG, Orlando Villas-Bôas falou sobre o que pensa do trabalho de seu Jesco, seu companheiro 8 anos de aventuras na Amazônia. “Quer seja a doçura de uma criança, o ar grave de um adulto ou a pureza de uma menina-moça, Jesco fixa com o mesmo amor, a mesma certeza do bem feito.” Pelas lentes de Jesco, os indígenas deixam de ser estereotipicamente exóticos. Ele valoriza a humanidade de cada um, o respeito que lhes devemos, sua alma e seus sentimentos.

Jesco imergiu na cultura dos cinta-largas, dos nambiquaras, dos indígenas que viviam na região do Alto Xingu. E viu nelas algo para além da estranheza. “Sua obra documental constitui-se em fonte histórica-antropológica permitindo leituras multidisciplinares”, reforça a pesquisadora Maria Eugênia. Estudiosos de todo o País têm buscado no acervo de Jesco na PUC Goiás a fonte primária de suas pesquisas. O curta-metragem Bubula: O Cara Vermelha, do professor Luís Eduardo Jorge, lançado em 1999, revela a importância deste alemão para a cultura nacional. Jesco morreu em 1994.