Antes de chegar a Goiânia para ficar, um alemão inquieto e talentoso percorreu, literalmente, meio mundo. Nascido em Hamburgo em 1904, Henning Gustav Ritter era um apaixonado pela arte, mas primeiro testou seus talentos na marcenaria. Tendo cursado a Escola de Artes Lerchenfeld, na Alemanha, seus trabalhos tiveram como primeira influência as tendências que vigoravam em sua terra após a Primeira Guerra Mundial. A paixão pela madeira atiçou sua curiosidade e o fez buscar novidades bem longe de casa. E com 21 anos, aportou no Brasil pela primeira vez.

Sua primeira morada por aqui foi na cidade de Esteio, no Rio Grande do Sul. A colônia alemã local o fez se sentir em casa pelos quatro anos que viveu no sul do Brasil. No final dos anos 1920, voltou para a Alemanha para completar os estudos, mas seu país já não era o mesmo. O nacionalismo exacerbado, alimentado pela crise econômica causada pelas sanções impostas à Alemanha após a Primeira Guerra, fizeram crescer um terrível fenômeno político. Em 1933, os alemães elegeram Adolf Hitler como seu chanceler. Logo, Gustav Ritter soube que não poderia viver mais ali.

Em 1934, casado, o artista plástico deixou a perseguição e a intolerância para trás e voltou para a América do Sul. “Essa história é fantástica”, comenta o cineasta Ângelo Lima, que fez um documentário sobre a vida de Ritter, chamado Uma Arte, Uma Vida. “Sua vinda definitiva para cá foi uma aventura. Ele embarca em um navio em Hamburgo e chega a Belém do Pará. De lá, pega um barco, que sobe todo o Rio Amazonas e vai parar em Iquitos, no Peru, onde passa a morar com outros alemães que também haviam fugido da Europa. Imaginem isso em 1934”, espanta-se.

No meio da selva, Gustav Ritter começa a amadurecer seu trabalho, sobretudo, de escultor e autor de aquarelas. Quando decide sair do Peru e vir para o Brasil, em 1936, passa rapidamente pelo Ceará, onde trabalha como desenhista e arquiteto, e vai parar em Belo Horizonte. “Lá, ele tem um contato maior cm Burle Marx. Chegou a ficar hospedado na casa dele. Isso o faz desenvolver seu lado paisagista”, indica Ângelo. Ao lado do mestre, trabalha no projeto paisagístico no Grande Hotel de Araxá, em Minas Gerais.

Esse homem cheio de histórias únicas chega a Goiás apenas em 1949, depois de se naturalizar brasileiro dois anos antes. Sua vinda para Goiânia ocorre após nomeação para ser professor da Escola Técnica Federal, onde lecionou disciplinas de desenho industrial. A arte, porém, continuava em seu radar. Ele foi um dos pioneiros da Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Goiás, onde ensinou escultura e modelagem. “Toda uma geração de artistas passou pelas mãos dele. Nomes como DJ Oliveira, Siron Franco, Ana Maria Pacheco, Maria Guilhermina”, lista Ângelo.

Gustav Ritter batiza hoje um centro cultural, em Campinas, onde há diversas aulas de música, teatro e dança, sobretudo. “Isso faz com que as pessoas achem que ele foi um compositor ou um dramaturgo. Pouca gente se recorda de que ele foi um escultor, um dos maiores que já tivemos. Um homem que revolucionou as artes em Goiás, como Frei Nazareno Confaloni, por exemplo”, defende o cineasta Ângelo. Ele destaca que Ritter adorava embrenhar-se por um Cerrado ainda incólume para buscar inspiração e desenhar suas paisagens. “Ia para o Araguaia e ficava dias por lá.”

Professor diligente, Gustav Ritter é descrito como um “homem de fino trato”. Foi também um incentivador da cultura e deixou isso de herança para dois de seus filhos, que fazem suas incursões pelas artes plásticas. Seu grande legado, porém, foi ensinar suas refinadas técnicas escultórias, que incluíam um domínio perfeito da tridimensionalidade, o que dava vigor impressionante às suas obras. Ritter morreu em 1979 em Goiânia e no ano seguinte sua obra obteve reconhecimento nacional, quando foi exposta na 11ª Bienal de Arte de São Paulo.