O ano era 1950 e Goiânia engatinhava. Goiás ainda sofria o trauma da transferência da capital e o Estado, como um todo, só era convidativo para quem se dispusesse a ser pioneiro em um lugar onde as benesses da modernidade não haviam chegado. Um religioso italiano, porém, não se intimidou e aceitou o imenso desafio de plantar aqui uma semente mais duradoura de arte. E justamente de uma arte revolucionária e vanguardista. “Eu brinco que Frei Nazareno Confaloni é a Semana de Arte Moderna de Goiás”, compara PX Silveira, pesquisador e biógrafo desse dominicano corajoso.

Convidado por Dom Cândido Penso para pintar o interior da Igreja Nossa Senhora do Rosário, na cidade de Goiás, frei Nazareno Confaloni não só terminou o serviço no prazo de um ano e meio, como decidiu ficar. “Ele nunca mais voltou. Interessante é que Dom Cândido não o convidou para se transferir para a então chamada Prelazia do Bananal, esta foi uma decisão exclusiva de Confaloni. Ele até viajava à Itália, mas só em visitas rápidas. A casa dele passou a ser Goiás”, informa PX, autor do livro Conhecer Confaloni, que refaz a trajetória deste homem de traços fortes.

Após finalizar os 15 Mistérios na Igreja do Rosário, Confaloni, cujo primeiro nome de batismo era Giuseppe, estabeleceu-se em Goiânia, onde mudaria a vida cultural da jovem capital. “Ele encontrou meios propícios para desenvolver sua arte”, explica PX. Um deles foi a chance de fundar uma escola de belas artes, o que fez em 1965, vinculando esse novo espaço de aprendizado à nascente Universidade Católica de Goiás. Começava uma tradição da qual fariam parte nomes como Siron Franco, Amaury Menezes e Ana Maria Pacheco. “Todos aprenderam com ele”, salienta PX.

Na opinião de seu biógrafo, Frei Confaloni está no mesmo nível de importância de outros artistas italianos que fizeram carreira no Brasil, mas que por se estabelecerem em grandes centros acabaram ficando mais conhecidos, como Alfredo Volpi, Victor Brecheret e Lina Bo Bardi. “Ele ombreia com esses nomes, além de ter produzido muito. Estimamos que ele tenha feito cerca de 4 mil obras, mas muito desse patrimônio se perdeu”, lamenta. “Pessoas tinham telas de Confaloni e nem sabiam. É uma pena. Suas obras ainda não são valorizadas como deveriam, mas isso será revertido um dia.”

Um dos trabalhos mais conhecidos de Frei Confaloni é o conjunto de paineis que ornamentam a antiga Estação Ferroviária de Goiânia, na Praça do Trabalhador, e mostram a formação da população goiana, com suas muitas influências étnicas. Há também um mural na atual sede da Secretaria Estadual da Educação, no Setor Coimbra. Uma grande mostra acaba de ser exibida no Museu de Arte Contemporânea, do Centro Cultural Oscar Niemeyer, fazendo uma retrospectiva da arte de Confaloni, cujo centenário de nascimento foi lembrado no ano passado.

“Ele foi um empreendedor. Quando veio para Goiânia, Confaloni conseguiu construir a Igreja São Judas Tadeu, no Seto Coimbra, que foi projetada por ele, apenas vendendo seus quadros ou fazendo permutas. Ele trocava telas por cimento ou areia, por exemplo. A igreja é hoje um dos exemplos mais representativos de seu talento. Dentro dela, há vários afrescos que mostram o refinamento de um pintor que sabia conciliar desenhos delicados com um vigor evidente na expressão das figuras religiosas, usando para isso cores fortes e formas entre geométricas e sinuosas.

No olhar de um São Francisco que parece nos encarar na alma, na cena dos apóstolos com Cristo, na simbolização do Espírito Santo, Confaloni extrapola o motivo religioso que o guia e mergulha em uma arte que, em técnica e expressão, não fica devendo a contemporâneos seus, como Cândido Portinari. Os rostos levemente borrados e os cenários cuidadosamente compostos inspiraram gerações de artistas e encantaram pessoas em diversos espaços. Este é Frei Nazareno Confaloni, o italiano mais goiano que já tivemos, o homem que trouxe o modernismo nas artes para seu novo lar.