Quando a queda do helicóptero no dia 7 de junho de 2014 tirou a vida do artilheiro Fernandão, sua mãe perdia o filho único e um grande amigo. Quase 4 anos depois da tragédia, dona Marli Ribeiro da Costa está mais forte ao falar de tudo o que aconteceu e viveu ao lado de seu maior orgulho. A dor continua, mas já compartilha espaço com uma saudade em que consegue até se lembrar de episódios engraçados, consegue até sorrir e agradecer por ter dado à luz uma pessoa que esteve em sua vida por 36 anos, dando-lhe três netos e momentos inesquecíveis.

“As lembranças deles são muitas. Não dá nem para saber quais são as maiores”, responde Marli. Logo em seguida, porém, as narrativas começam a brotar naturalmente. “Quando tinha cerca de 16 anos, o Fernando ficou três dias sem ir treinar. Ele estava subindo para a categoria profissional. Daí o Raimundo Queiroz, dirigente do Goiás, foi lá em casa e pediu para chamar o Fernando. Conversou com ele o convenceu a voltar. Quando saiu, o Fernando me deu um abraço e começou a chorar. Dizia que não era jogador profissional, que não daria conta. E eu dizia que era sim.”

Marli sempre foi um esteio para o craque. Competitivo como todo campeão, Fernandão odiava perder. “Quando isso acontecia, ele chegava irritado em casa e se trancava no quarto e era melhor deixar ele quieto.” Quando o filho era mais jovem ainda, porém, ela precisou interferir algumas vezes. “Um dia, fui ver um jogo dele no Centro de Treinamento. Ele tinha uns 14 anos. Uma hora, ele fez falta e foi expulso. Saiu do campo indignado, entrou no carro e me abraçou, muito nervoso. Eu fui acalmando ele devagar. Ainda bem que, no final das contas, o time dele ganhou.”

Toda a força dada pela mãe nos momentos mais complicados transformaram-se em gratidão. Ídolo do Goiás, Fernandão, depois de jogar no exterior, foi contratado pelo Internacional, de Porto Alegre. Na capital gaúcha, conheceu suas maiores glórias. “Quando eles ganharam a Libertadores em cima do São Paulo, eu entrei em um corredor comprido lá no Estádio Beira-Rio. Abri uma porta e vi o Fernando, que abriu os braços e veio em minha direção. Ele me deu um abraço forte, longo e disse: 'é pra senhora, mãe'. Nunca mais vou esquecer aquela cena.”

Para Marli, o filho que partiu cedo demais foi “um presente de Deus”. Hoje, aquela mesma ligação estreita ela estabeleceu com a neta Tainá, 19 anos, que atualmente cursa Jornalismo. “Ela me dá muita força para continuar, para aguentar a falta dele. E ela é a cara do pai.” Com os gêmeos Enzo e Eloá, a avó tem menos contato. Hoje, Marli faz das próprias recordações maneiras de se fortalecer. “A solidariedade, o carinho que vi nas torcidas foi lindo. Eu percebi que não era só eu que estava sofrendo com a morte dele. Milhares de pessoas no Beira-Rio também sentiam muita dor.”

Fernandão, quando morreu, iniciava uma nova carreira, a de comentarista de TV. Experiência ele tinha de sobra para falar de futebol. Depois de revelado pelo Goiás em 1995, caiu nas graças da torcida do Verdão, onde jogou até 2001, ganhando cinco campeonatos goianos. Mudou-se para a França, onde defendeu o Olympique de Marselha e o Toulouse. “Uma vez, ele teve um choque de cabeça num jogo. Me ligaram dizendo que ele tinha sofrido traumatismo craniano. Fiquei louca. Dois dias depois, estava na França cuidando dele”, relembra Marli.

Voltou ao Brasil para virar mito dos colorados do Rio Grande do Sul. Era o capitão do time nas conquistas da primeira Libertadores da América e do Campeonato Mundial Interclubes, batendo o poderoso Barcelona, em 2006. Em sua carreira, marcou um dos gols mais bonitos da história do Serra Dourada com a camisa do Goiás, uma bicicleta perfeita que entrou no ângulo num jogo contra o Bahia. Também fez o gol número mil do confronto entre Internacional e Grêmio. Uma estátua em sua homenagem foi erguida na frente do novo Beira-Rio. Para emoção e gratidão de dona Marli.