O programa era uma grande farra. Nos antigos estúdios da TV Anhanguera, um senhor corpulento comandava ao vivo uma verdadeira balbúrdia, em que frutas da feira se misturavam a cantores em busca de 15 segundos de fama. Tudo regido pelo Coronel Hipopota, nome artístico de Maximiliano Carneiro, filho de pais libaneses nascido em Araguari (MG). Com A República Livre do Cerradão, líder absoluto de audiência nas tardes de sábado, esse homem tornou-se o nosso Chacrinha, a figura que usava de carisma, autenticidade e um pouco de anarquia para falar com o povo.

“Desde que eu tinha 9 anos de idade, eu me lembro de meu pai fazendo o programa”, recorda Jane Nacare Carneiro, filha única de Coronel Hipopota com sua esposa, Maria José, a Zezé, uma querida e respeitada médium espírita. Eles viveram por muitos anos em uma casa de quintal grande no Setor Universitário, imóvel que servia como uma espécie de continuação do trabalho do apresentador na TV. “Era sempre muita fartura. Tinha frutas penduradas para todo lado. Ele levava esses alimentos para distribuir no programa”, rememora a filha.

A casa era muito movimentada. Vários artistas, sabendo onde ele morava, apareciam por lá para pedir uma chance, mostrar o que sabiam fazer e, quem sabe, ganhar um espaço em um dos programas mais assistidos da época. “As duplas sertanejas iam lá em casa para que ele pudesse avaliar se entrariam ou não no ar. Eu me lembro de Zazá e Zezé cantando e tocando sanfona para papai ouvir. Zezé é o Zezé di Camargo, que no início fazia dupla com seu outro irmão, o Zazá”, conta Jane. “Meu pai ficava até de madrugada pensando como incrementar o programa.”

A carreira artística de Maximiliano começou como radialista em Uberlândia. Quando se mudou para Goiânia, foi contratado pela Rádio Anhanguera, onde começou a apresentar o República do Cerradão. Nesta época, já era o Coronel Hipopota. “Esse apelido vem do fato de ele sempre ter sido um homem grande, gordo. O apelido dele era Hipopótamo. Quando começou a fazer o programa, ele queria ser o Coronel. Afinal, ele era dono de uma República, a República do Cerradão”, ri Jane. “Unindo as duas coisas, ficou Coronel Hipopota”, explica.

Longe de ser pejorativa, a designação era uma manifestação de carinho. Com chapéu de aba larga na cabeça e um sorriso bonachão, ele recebia as atrações musicais e os calouros com a mesma simpatia, enquanto brincava com a plateia. Havia até a versão das chacretes, as hipopotecas.  “Impressionante como meu pai ficou no imaginário de tanta gente. Já fazem 36 anos que ele morreu e muitas pessoas ainda se lembram perfeitamente dele”, admira-se Jane. A morte foi estúpida. Uma bicicleta o atropelou quando ele saía de uma feira no Setor Sul. Ele bateu a cabeça e não resistiu.

Sua alegria, porém, permaneceu na recordação de quem o amou e viveu perto dele. “Meu pai era um homem excepcional. Era muito espontâneo, gostava de festas, de fazer surpresas para a gente. Ele amava estar rodeado de pessoas o tempo todo”, descreve Jane. Quando não estava conversando com alguém, tinha a companhia de um fiel radinho de pilha, que costumava ouvir sempre que podia. “E gostava de uma pinguinha”, entrega a filha. “Ele não era um homem de ficar bêbado ou beber o dia todo. Nada disso. Mas tinha que ter um aperitivo. Era sagrado.”

Além de lidar de forma tão intensa com seu público, o Coronel Hipopota tinha uma paixão ardente pelo Vila Nova Futebol Clube. “Era colorado doente”, diverte-se Jane. Já em Minas, seu time era o Uberaba. O homão, porém, ficava amedrontado com chuvas fortes. “Morria de medo”, resume a filha. Jane considera que teve um pai amoroso, que colocava a família acima de tudo e que tinha adoração pelos três netos que ganhou. “Mas quando ficava nervoso, meu Deus, era melhor sair de baixo”, completa. “Mas a raiva dele era passageira.” Já sua imagem, essa imortalizou-se.