Fale em Goiás e surgirá um nome: “é a terra de Cora Coralina”, dirão, provavelmente. Essa associação é cada vez mais imediata. Se a conversa girar em torno da antiga Vila Boa, então, será inescapável mencionar uma certa casa caiada de branco, na beira de um rio, ao lado de uma ponte. Ali viveu Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, poeta e doceira, um dos nomes mais festejados da literatura brasileira nas últimas décadas. Com seus poemas simples, sem maiores formalismos, a imagem da senhora simples encanta cada vez mais público por seu lirismo com sabor da terra.

“Cora Coralina era uma pessoa muito interessante. Passava a maior parte do tempo aqui, na cozinha”, mostra Marlene Velasco, diretora do Museu Casa de Cora, instituição que ocupa o antigo imóvel da poeta, um casarão centenário que pertenceu à família da escritora por gerações. O imenso quintal nos fundos da residência é o lugar onde ainda está plantado um variado pomar, fonte de matéria-prima saborosa para os doces mais famosos da antiga capital goiana. “Não sou uma ex-doceira. Sou uma doceira e considero melhores os meus doces que meus versos”, escreveu Cora.

A escrita veio primeiro que as compotas na vida da poeta. Nascida em 1889, quatro meses antes da Proclamação da República, a autora, que dizia ter em si “todas as idades do mundo”, cresceu na cidade de Goiás, onde sua família era bem conhecida. Daí o escândalo que tomou a sociedade local quando a Aninha da Casa da Ponte fugiu da cidade, com 22 anos de idade, acompanhando o advogado Cantidio Tolentino Bretas, algumas décadas mais velho e divorciado. Isso eclipsou naquele início os versos de uma escritora que florescia.

As primeiras linhas de Cora foram publicadas no Anuário Histórico e Geográfico do Estado de Goiás na forma de um conto intitulado Tragédia na Roça. Sua produção literária conheceu um grande hiato por conta do casamento. Uma história (não confirmada) é a de que, vivendo no interior paulista, Cora escrevia textos que não publicava, mas circulavam e teriam gerado um convite para que ela participasse da Semana de Arte Moderna, em 1922. Fato é que ela permaneceu anônima. Quando seu marido morreu, em 1934, começou a fazer doces e vender livros para sustentar a casa.

“Quando ela voltou à cidade de Goiás, em 1956, depois de passar 45 anos fora daqui, o que lhe deu sustento foi a produção de doces. Cora viveu disso por 15 anos”, afirma Marlene Velasco. Doces que fizeram a fama da filha que voltava à terra natal. Cora tomou posse da velha casa da família após a morte dos pais e ali construiu um mito. Com sua letra um pouco tortuosa, escrevia em cadernos simples, que mandava a meninada comprar. Mantinha uma rotina de preparação de doces e de textos. Vila Boa e a poesia que as ruas de pedra lhe inspiravam adornavam seus versos.

A vida de escritora começou para valer apenas em 1965, quando publicou seu primeiro livro, Poemas dos Becos de Goiás e Histórias Mais. Depois veio, em 1976, Meu Livro de Cordel, que caiu nas mãos de Carlos Drummond de Andrade. Uma carta e uma crônica do poeta trouxeram a fama nacional à autora. Célebre, Cora precisou dividir seu tempo com os muitos leitores que começaram a bater à sua porta para comprar livros, doces e conversar. Ela, instalada numa cadeira no corredor, mantinha a casa aberta. Já idosa, arranjava forças para lidar com a admiração que suscitava.

Vintém de Cobre: Minhas Confissões de Aninha, Os Meninos Verdes e Estórias da Casa Velha da Ponte foram os últimos livros que publicou em vida. Em 1983, ganhou o Prêmio Juca Pato de intelectual do ano. Em 10 de abril de 1985, Cora, aos 94 anos, morreu em Goiânia. A capa de O POPULAR do dia 11 de abril trazia a notícia do falecimento da poeta ao lado da manchete que acompanhava a agonia final do presidente Tancredo Neves, que morreria 10 dias depois. “Tudo aqui está como ela deixou”, ressalta Marlene. E Cora deixou uma doce poesia para o Brasil.