Quando Maria Célia Câmara morreu em 28 de setembro de 1998, ela deixou uma multidão de órfãos. Mãe de um filho biológico – Jaime Câmara Júnior –, ela adotara gerações de artistas de Goiás ou que aqui vieram construir suas carreiras, incentivando, adquirindo obras, organizando exposições, dando visibilidade aos trabalhos. Desde que iniciou sua atuação como marchande, a mais prestigiada da capital goiana e que teve renome nacional, nenhum grande nome das artes plásticas do Estado ficou sem sua avaliação e auxílio, sobretudo quando ainda era desconhecido.

Paranaense da cidade de Jacarezinho, Célia Câmara encontrou em Jaime Câmara, um dos fundadores do Grupo que leva seu nome, um companheiro para toda a vida. Eles se casaram em 1943 e levaram adiante, em conjunto, projetos que mudaram a história goiana nas décadas seguintes. Com o marido, ajudou a consolidar a linha editorial dos veículos de comunicação da então chamada Organização Jaime Câmara para que a cultura tivesse sempre destaque. Isso fez toda a diferença para artistas que precisavam de espaço para mostrar seus talentos.

Célia Câmara também tinha grande penetração em Brasília, sedimentando uma ponte sólida nas artes entre a capital federal e Goiânia. Com isso, pôde ampliar as possibilidades dos artistas sob seus cuidados. E eles foram muitos. Antônio Poteiro, Siron Franco, Amaury Menezes. Todos eles tiveram em Célia Câmara um esteio e um estímulo, o que ficou ainda mais forte quando ela abriu, em 1972, a Casa Grande Galeria de Arte, em Goiânia, espaço nobre para mostras coletivas e individuais, para lançamentos de projetos e outras iniciativas culturais.

Ficaram famosos seus concursos de Novos Talentos, em que identificava quem estava fazendo bons trabalhos, mas ainda não havia tido uma oportunidade. Essa ação promoveu uma interação mais orgânica entre artistas que surgiam e os que já estavam estabelecidos no mercado, enriquecendo o trabalho de todos. Assim, Célia Câmara foi fundamental na carreira de uma lista extensa de artistas plásticos: Cléber Gouvêa, DJ Oliveira, Roos, Cléa Costa, Isa Costa, Elder Rocha Lima, Alexandre Liah, Omar Souto, Juca de Lima, Selma Parreira e Gilvan Cabral, entre muitos outros.

A ligação estreita dessa mulher incansável com o meio artístico-cultural goiano foi definitivamente selada com a criação da Fundação Jaime Câmara, em 1995, oportunidade em que o jornal O Popular completava 57 anos de existência. Para além da cultura, a nova entidade, sem fins lucrativos e de utilidade pública, nasceu atuando em diversas áreas. Além de forte apoio a ideias no campo da cultura, que passavam pela inclusão, formação de público e diversidade de ideias, a Fundação Jaime Câmara também tinha forte presença em projetos de educação e saúde.

Antes disso, no início dos anos 1980, Célia Câmara foi pioneira em outro aspecto. Forte e de atuação independente, ela acreditava que a mulher deveria ter protagonismo na sociedade, ditar seus próprios destinos e combater preconceitos e estereótipos. Por isso, ao lado de Tereza Sabino e da jornalista Glória Drummond, que trabalhava em O Popular, concebeu e colocou no ar o programa Mulher em 1981, em que todos esses temas eram debatidos abertamente. Isso era inédito em Goiás e foi um das primeiras atrações do gênero no País, ficando no ar por seis anos.

Com sorriso aberto, a elegância e a habilidade em, por meio da diplomacia, chegar aos objetivos que traçava, Célia Câmara foi uma mulher à frente de seu tempo. Sua atuação foi reconhecida no restante do País, recebendo homenagens em vários estados. O compromisso social que sempre demonstrou e sua participação central na evolução das artes em Goiás fizeram de Célia Câmara uma pessoa inesquecível para muita, muita gente. Seja como incentivadora das artes, seja como vice-presidente do maior grupo de comunicação do Centro-Oeste, ela manteve sempre a coerência e o carisma.