Salvador – Indicado pela presidente Dilma Rousseff para a vaga de Carlos Ayres Britto no Supremo Tribunal Federal, o advogado Luís Roberto Barroso defendeu, ontem, em Salvador, que haja um “ponto de equilíbrio” entre Legislativo e Judiciário e tentou estabelecer os parâmetros que considera ideais para a relação entre os poderes. “Em uma democracia, decisão política deve tomar quem tem voto”, avaliou. “O Judiciário deve ser deferente às escolhas feitas pelo legislador e às decisões da administração pública, a menos que – e aí, sim, se legitima a intervenção do Judiciário – essas decisões violem frontalmente a Constituição. Aí, sim, por exceção e não por regra, o Judiciário pode e deve intervir.” Defendendo seu ponto de vista, Barroso chegou a criticar algumas ações recentes do STF, citadas pelo advogado como “ativismo judicial”. “Eu qualificaria como ativismo decisões do Supremo Tribunal Federal em matérias como a fidelidade partidária”, disse. Apesar de pregar a separação dos poderes, o advogado defendeu a reforma política. “O problema é discutir qual reforma”, ponderou “Uma democracia precisa de política de qualidade.” Barroso participou, na manhã de ontem, do 13º Congresso Brasileiro de Direito do Estado, no qual deu uma palestra com o tema O Constitucionalismo Democrático no Brasil: Crônica de um Sucesso Imprevisto. Na exposição, focada nos 25 anos da Constituição de 1988, enalteceu o documento como o responsável pela “travessia bem-sucedida entre o Estado autoritário e o Estado democrático”, mas também o apontou como “excessivamente abrangente” e “excessivamente detalhada”. “A Constituição de 1988 só não traz a pessoa amada em três dias”, brincou o advogado. “Com essa abrangência, ela produz um arranjo constitucional que impulsiona a judicialização que está na pauta hoje.” Poesia e tolerância Durante a palestra, o provável futuro ministro do STF declamou poemas – do espanhol Lupercio Leonardo de Argensola ao sambista Nelson Sargento – e defendeu a crescente subjetividade nos julgamentos. “Há o aumento da subjetividade simplesmente porque a vida está mais complexa – e, para mim, mais bonita”, disse Barroso, citando como exemplo a formação de famílias. “Antes, só havia família com o casamento. Hoje, há quatro formas aceitas de formação de família: monoparental, união estável, casamento e união homoafetiva. São quatro formas no lugar de uma.” Barroso novamente fugiu das perguntas sobre sua indicação, sobre posições pessoais e sobre a futura atuação no STF - apesar de ter sido apresentado no Congresso como “ministro”, pelo presidente do Tribunal de Justiça da Bahia, desembargador Mário Alberto Simões Hirs. “Neste momento, estou com uma crise de falta de opiniões”, brincou. “Estou feliz e honrado pela indicação, mas não sou ministro, nem me sinto ministro”, disse o advogado. “Não gostaria de fazer nenhum comentário substantivo antes da deliberação sobre minha indicação pelo Senado.”-Imagem (Image_1.329427)