Opinião

Alimentos e o desafio climático

As mudanças climáticas, ao longo das próximas décadas, terão efeitos de grandes proporções sobre a produção de alimentos. Um clima mais quente e mais volátil coloca em grande risco todo o sistema agropecuário. Mudanças na frequência, intensidade e duração de secas e inundações afetam tanto os sistemas produtivos regionais quanto o comércio. Aumentar a segurança alimentar no contexto de um clima em rápida transformação é um dos grandes desafios da humanidade.

A maioria dos países reunidos em Paris em dezembro passado se comprometeu com a redução da emissão de gases de efeito estufa associados aos derivados do petróleo. Contudo, o setor agrícola responde por aproximadamente 20% das emissões globais. Isto é mais do que a emissão conjunta de todos os carros, ônibus, aviões, trens, barcos e qualquer outra atividade que depende dos combustíveis fósseis.

O desmatamento para a expansão das áreas agrícolas é responsável pela metade destas emissões. A outra metade se deve principalmente às práticas agrícolas e pecuárias. Políticas públicas e melhores práticas de manejo podem ajudar a reverter as principais causas das mudanças climáticas.

Mais do que ser afetada pelas mudanças climáticas, a agropecuária é uma parte importante do problema e precisa ser parte da solução, haja vista que os ganhos em eficiência esperados dos setores de energia e transportes não serão suficientes, per si, para manterem o aumento de temperatura do planeta abaixo da meta de 2 graus Celsius.

O Brasil, em particular, tem sido muito bem sucedido em reduzir o desmatamento, ao mesmo tempo em que aumenta a produção de alimentos. E as principais empresas do setor alimentício tem se comprometido em não negociar com produtores responsáveis por desmatamentos recentes.

Na condição de consumidores, nós temos o poder de influenciar as expectativas e decisões de governos e das companhias de alimentos. A adoção do desmatamento zero associado à produção de óleo de dendê no Sudoeste Asiático é uma resposta direta à pressão dos consumidores. E esta pressão começa a ser ouvida, tanto na Amazônia, onde foi implementada a chamada “moratória da soja” (que restringe a compra deste grão quando proveniente de áreas desmatadas após 2008), quanto no Cerrado, hoje a principal fronteira agrícola do País e ainda sujeito à intensos desmatamentos (principalmente na região conhecida como Matopiba - Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia).

Contudo, a nossa influência mais poderosa como indivíduos está na dieta e na redução de resíduos. A comida que nós ingerimos, desperdiçamos e o lixo que geramos são produtos da terra, água e fertilizantes que usamos para produzi-los. A comida incorpora estes recursos e os seus sub-produtos, que são as emissões de gases de efeito estufa. Não há “refeição grátis”. Como nós produzimos os alimentos e o que nós comemos têm um profundo impacto sobre o clima, a água e os ecossistemas naturais. Um melhor conhecimento e gestão de custos e benefícios é crítico para criarmos um mundo mais sustentável.

Comentários
Os comentários publicados aqui não representam a opinião do jornal e são de total responsabilidade de seus autores.
ASSINE JÁ