Da redação

Tempos novos, políticas velhas

Em uma instigante leitura de jornais goianos do início da década de 80, para uma pesquisa histórica, constatei alguns fatos curiosos que merecem ser avaliados nesta época do ano de balanços de perdas e ganhos.

Atualmente as pessoas tendem a acreditar que a política piorou muito, influenciadas pela enxurrada de notícias de adesões a torto e a direito, do toma lá, dá cá que norteia as relações entre parlamentares e Executivos, sem falar do número sem fim de escândalos de corrupção. No entanto, a leitura atenta do noticiário de 30 anos atrás revela que as coisas não pioraram. Já eram assim.

A grande maioria das adesões ocorre hoje, como no passado, no mesmo sentido, da oposição para o governo. Na década de 80, final da ditadura militar e quando o País se entusiasmava com os preparativos para a primeira eleição direta para governador depois de 16 anos, em novembro de 1982, vários oposicionistas renderam-se ao canto da sereia governista.

E não mudaram de lado por convicções políticas, mas por cargos. Deputado trocou o PMDB pelo PDS para ser nomeado prefeito; suplente de deputado aderiu para ganhar cargo na Assembleia, e até ex-cassado político virou a casaca no auge da redemocratização em troca de cargo com nome pomposo: Secretaria sem Pasta para Assuntos de Encaminhamento dos Expedientes da Governadoria. Traduzindo, secretaria extraordinária, a mesma estrutura que governos mantêm hoje para composições políticas.

Na mesma época, deputados reclamavam que ganhavam pouco e pressionavam por aumento salarial; os parlamentares governistas faziam romaria no governo para reclamar a liberação da “cota-parte” do Orçamento, hoje conhecida por emenda parlamentar, e faziam corpo mole nas votações de interesse do governo na Assembleia. Em 1980, os políticos alimentavam na população a esperança de que a democracia mudaria a política. A comparação das práticas políticas atuais com as daquela época mostra que, entretanto, a geração de líderes e de partidos que surgiu e se destacou na luta pela redemocratização não cumpriu o que prometeu e hoje repete as velhas práticas que se comprometeu a combater.

Diferentemente dos políticos e de seus partidos, a imprensa mudou nesse período. As informações sobre acordos pouco republicanos eram noticiadas discretamente e perdiam-se nas entrelinhas. Hoje a imprensa dá nomes a essas barganhas, escancara o toma lá, dá cá e os esquemas de corrupção. Se a prática política não muda, mas a imprensa, sim, daí vem a reação da maioria de políticos envolvidos em escândalos de perseguir jornalistas e jornais. Afinal, se a imprensa fosse censurada como há 30 anos a vida dos políticos também seria tão tranquila quanto no passado. O aprendizado que fica de tudo isso é que a sociedade e a imprensa devem ficar ainda mais vigilantes, pois sabem hoje o que não sabiam há 30 anos: que a mudança não virá pelas mãos dos políticos. Feliz 2013!

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