Crônicas & Outras Histórias

Como vai a vida?

“Olá! Como a vai a vida?”

“Vida? Que vida? Você chama isso de vida? Só trabalhar para pagar as contas, com o País nesse caos, sem sequer ter uma vida social e amorosa?”

“É que do lado de cá parece que a vida de solteira é tão animada. Ao menos vocês contam com os subterfúgios do amor. E os romances, aventuras?”

“Você quer dizer a selva, repleta de criaturas cada vez mais estranhas. Mas não posso me queixar. Tenho tido uma movimentada vida sensual. Venho inclusive experimentando novas modalidades de relacionamento.”

“Novas modalidades? Que interessante! Nós, casadas e mães, habitamos um mundo à parte. Ignoramos tudo o que se refere às inovações na área, exceto uns filminhos e livros pornô mommy.”

“Não são exatamente inovações, antes tendências, como agora a virtual. As pessoas encontram-se em um aplicativo, trocam os números e passam a usar outros aplicativos para prosseguimento das relações.”

“Mesmo? E como isso acontece? Que excitante!”

“No começo até é, mas centenas de nudes depois, torna-se maçante. Em geral, por gravações de áudio, perguntam como a mulher está se vestindo. Mesmo que com aquela roupa puída, ela diz que está com uma camisolinha ou lingerie sensual, afinal há que enrijecer, não afrouxar a imaginação. Eles já não costumam ter muita paciência e logo pedem fotos, quando não mandam eles mesmos imagens já previamente capturadas, em proporções tão vantajosas que – suspeito – utilizam a câmera em ângulo muito favorável.”

“Uau, isso tudo é muito quente e divertido. E o que vem depois?”

“Depois pedem que descreva preferências, como está se sentindo, pornografiazinhas. É preciso exagerar em umidades. Afoitos, logo começam a narrar o que vão fazer, que vão pegar desse jeito, sempre com um pouco de força. Mas também não se demoram muito nisso, pois a grande apoteose é gravarem ou transmitirem ao vivo o seu glorioso clímax. Alguns propõem reciprocidade dramática, mas o que desejam mesmo é ser assistidos.”

“E termina aí?!”

“Ué, termina sozinha se quiser, como eles fazem com os filmes. A diferença é que, segundo eles, todo o filminho está sendo feito para a gente.”

“Mas e depois, não rola um encontro?”

“Raramente. Eles dizem temer contrair alguma DST ou que não querem se envolver ou não desejam um relacionamento agora.”

“Seria só uma transa, não um relacionamento, não?

“Mesmo assim não estão muito interessados. Dizem que é trabalhoso, oneroso. Mas há também uma nova modalidade, que é sexo sem contato físico com penetração.”

“Como é isso?”

“Em geral é praticado por uns caras sarados, índice baixíssimo de gordura corporal. Eles parecem emborrachados de tão rijos e se emborracham mesmo muito bem, de modo que somente a parte verdadeiramente emborrachada se atrita nos movimentos de entra e sai. Gostam de ser contemplados e elogiados, olhando-se no espelho com luz acesa. Não há muito abraços ou beijos, e seus ombros pétreos não são muito convidativos para que ali alguém se aninhe no depois. O contato é fugaz e ao coito se sucede o arremesso no efeito catapulta, o que impede a criação de qualquer intimidade. Também é comum a inclusão de brinquedinhos nessa modalidade e a participação de outros ginastas.”

“Mas isso tudo é muito desumano, amiga. Desse jeito até prefiro me manter no tedioso, sacrificante e muito eventual coito conjugal.”

“Abstenho-me de opinar, mas asseguro que se não há vida aí dentro, há tampouco aqui fora.”

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