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Painel do Centro-oeste

1º Salão de Arte Contemporânea do Centro-Oeste, que será aberto hoje, reúne obras de artistas de diferentes gerações e Estados

Divulgação

Um panorama da produção da arte contemporânea regional pode ser visto no 1º Salão de Arte Contemporânea do Centro-Oeste, que será aberto hoje no Centro Cultural da UFG. A mostra reúne obras de artistas de diferentes gerações. Entre 277 artistas que se inscreveram, os escolhidos foram João Angelini e André Valente (Brasília), Anna Behatriz Azevedo, Luiz Mauro e Pitágoras (Goiás).

Além dos premiados, que receberam R$ 10 mil cada um, o salão realizado pela Funarte, por meio do Edital de Apoio a Festivais de Fotografia, Performance e Salões Regionais, e foi produzido pela UFG, contemplou com prêmio de mesmo valor outros quatro artistas convidados na categoria Hors Concurs: Edney Antunes (Goiás), Adir Sodré (Mato Grosso), Humberto Espíndola (Mato Grosso do Sul) e Elder Rocha (Brasília). Os artistas premiados doarão suas obras para o acervo do centro cultural que se tornou cartão postal da Praça Universitária.

Durante a abertura da exposição o público vai conferir ainda duas performances que serão realizadas pelos grupos Corpos Informáticos e Mesa de Luz, ambos coletivos de Brasília. O primeiro vai apresentar Encerando a Chuva no pátio multiuso do Centro Cultural UFG e o outro, no teatro do espaço cultural, mostrará uma performance mesclada com vídeo chamada Remix Centro-Oeste.

Carlos Sena Passos, diretor do Centro Cultural UFG, explica que o critério utilizado para apontar os artistas escolhidos na categoria Hors Concurs foi a contribuição deles para o desenvolvimento da arte contemporânea em suas realidades locais. O torneio distribuiu R$ 120 mil (entre pró-labore aos selecionados e premiações para artistas homenageados pela curadoria e vencedores julgados pela comissão de premiação).

O conjunto da exposição é um painel representativo da produção artística contemporânea regional, pois além dos trabalhos premiados, ela conta com 33 obras. Os artistas finalistas selecionados ganharam R$ 2 mil cada um pelos trabalhos nas categorias desenho, pintura, objeto, fotografia, videoinstalação, video-objeto, performance e videoperformance. São eles: Ana Ruas e Evandro Prado (Mato Grosso do Sul), Corpos Informáticos, Grupo Mesa de Luz, Camila Soato, Fernando Aquino Martins, Polyana Morgana, Virgílio de Barros Neto e Rodrigo Paglieri (Brasília), Dalton Oliveira de Paula, Enauro de Castro, Hortência Moreira, Ricardo Teixeira e Sandro Gomide (Goiás), Gervane de Paula e Miguel Penha (Mato Grosso).

A curadoria do projeto, assinada por Carlos Sena Passos, contou com a participação de Cayo Honorato (São Paulo), Daniela Labra (Rio de Janeiro), Gilmar Camilo (Goiás), Marília Panitz (Brasília) e Rafael Maldonado (Mato Grosso do Sul). A comissão de premiação contou com Aguinaldo Coelho (Goiás), Celso Fioravante (São Paulo), Felipe Scovino (Rio de Janeiro) e Wagner Barja (Brasília). Carlos Sena explica que as obras premiadas pelo salão passeiam de categorias tradicionais e históricas, como desenho e pintura, à instalação e imagem videográfica. Para o curador, as obras da exposição são impactantes e um reflexo da atualidade, características essenciais para o acervo que a UFG está formando.

Premiados

Carlos Sena avalia ainda que os premiados de Goiás são fruto de três gerações diferentes, o que denota o amadurecimento do processo artístico e a posição de destaque do Estado no cenário regional. Ele enfatiza que o objetivo principal do 1º Salão de Arte Contemporânea do Centro-Oeste é obter uma visão panorâmica da arte contemporânea na região. "O diferencial é que o salão contempla não apenas novos artistas, como Dalton de Paula e Ana Behatriz, esta última entre os premiados, mas veteranos como Luiz Mauro", explica.

Luiz Mauro iniciou sua trajetória profissional na década de 1980. O desenhista, que contabiliza prêmios em vários salões, participou do concurso com a obra Estúdio nº 5. Trata-se de um desenho que une técnicas de nanquim e óleo sobre papel. Ele retrata o interior escuro e melancólico de um ateliê com quadros pendurados na parede que é invadida por luz externa. Luiz Mauro explica que o desenho é o quinto de uma série sobre o mesmo ambiente. "Houve variações de materiais e de escalas. O espaço é meio imaginário e meio real, remete a dor, poesia e tensão", discorre o artista.

Luiz Mauro reforça a importância do salão de arte. "A última catalogação contemporânea do Centro-Oeste foi realizada em 1990 por Aline Figueiredo. Eu fui revelado no salão, ele estimula a produção e reúne um mapeamento atualizado da produção do Centro Oeste", diz Luiz Mauro. Ele acrescenta que colocar o trabalho sob a avaliação criteriosa e cuidadosa de críticos é essencial na carreira do artista que precisa ser corajoso em colocar seu trabalho para ser avaliado e não se acomodar. "A obra não para, é uma vida, é a tensão do dia, está nas ruas e na ação do tempo."

Pitágoras Lopes, artista expoente da geração dos anos 1990 que tem trabalho que vai além da linguagem pictórica e da figuração expressionista, exibe três pinturas na mostra. As pinceladas têm como suporte paletes de madeira encontrados na rua. O resultado, com cor intensa, é a união do regional com o universal, por meio de elementos como um boi e um astronauta no mesmo espaço.

Anna Behatriz Azevedo é a única mulher premiada. A artista surgiu no cenário goianiense nos anos 2000. Seu trabalho transita entre performance, dança e videoarte. No Salão, Anna Behatriz Azevedo vai exibir a videoarte Ser Preciso no Assento. Ela trabalha a visualidade e o som em ambiente com ninho e fumaça. Outros premiados são João Angelini, artista visual, e André Valente, músico. De Brasília, a dupla expõe a videoinstalação Afoxé nº 5. O trabalho surgiu de um olhar bem-humorado para o cotidiano. Ele utilizou aparelhos antigos de televisão e DVD amontoados.

Convidados e homenageados

Convidado pela curadoria do Salão, Humberto Espíndola, artista veterano do Mato Grosso do Sul, foi premiado com uma obra que pertence a uma das fases mais importantes do artista: a série Confinamentos (1972). O trabalho é da época em que ele participou da Bienal de Veneza, na Itália. Feita com couro do boi, a tela traz marcas de propriedades, crachá de premiação e arame farpado soldado a uma moldura de ferro.

Para Humberto Espíndola, o convite para participar do Salão foi uma honra, bem como sua premiação e a chance de contribuir com seu trabalho para o novo acervo da UFG. Na sua opinião, o Salão ainda é importante por contemplar artistas de categorias e modalidades como a pintura. "Há mais de cem anos a colagem e a pintura estão aí para expressar o que os artistas têm a dizer. Elas vão continuar com as novas mídias", destaca o artista.

O artista mato-grossense Adir Sodré foi contemplado com uma pintura de grande formato feita em 2008 e intitulada Duas Japas na Amazônia e o Pintor do Mato. Estruturada pelo desenho, a obra é repleta de detalhes e de ornamentos coloridos que retratam de história da arte à natureza do universo caboclo e de gravuras japonesas.

O goiano Edney Antunes foi premiado com a instalação Neo-ready-made Bio-tecnológico (2000), mostrada primeiramente no 7º Salão da Bahia (2000-01) e depois em espaços como o Paço das Artes na USP. A obra, que também já foi mostrada em exposição recente do artista realizada no Museu de Arte de Goiânia, reúne imagens de Michael Jackson e da ovelha Dolly.

Nessa obra, Edney Antunes, que contabiliza participações em mais de 20 salões, aborda questões de debate da atualidade como manipulação genética, clonagem e alterações estéticas do corpo humano. Para o artista, houve um descaso do governo estadual que deixou de promover os salões de arte há vários anos. "Temos apenas um salão no interior do Estado, em Jataí, que é promovido pela prefeitura, que tem incentivado artistas de diferentes regiões", lembra Edney.

Goiano radicado em Brasília, Elder Rocha foi premiado com a pintura Justaposição Polar (2008), exibida na exposição individual homônima realizada no Centro Cultural Banco do Brasil, em Brasília, no ano de 2009. O trabalho junta desenho e pintura, para representar um homem de olhos doentes, numa metáfora da cegueira contemporânea propiciada pelo bombardeamento de informações visuais múltiplas.

Exposição: 1º Salão de Arte Contemporânea do Centro-Oeste /Vernissage: Hoje, às 20 horas / Visitação: De amanhã até o dia 17 de junho / Local: Centro Cultural UFG (Av. Universitária, nº 1.533, Setor Universitário / Informações: 3209-6251

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