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Mostra plural sobre os homens e seus meios

A Mostra Competitiva do Fica traz sempre um recorte imprevisível dentro do extenso conjunto de obras que podem ser classificadas como ambientais. A cada ano, os próprios filmes orientam o trabalho do júri, que adota como principal critério a qualidade formal dos trabalhos inscritos.

Por isso, a seleção do Fica sempre apresenta características particulares que os filmes ambientais expressam naquele ano. Em 2017, as obras selecionadas têm uma inclinação espontânea para uma questão universal, que rende inúmeras possibilidades de tratamento no cinema: até que ponto o meio em que vivemos reflete as condições da nossa vida interior?

Essa questão está em filmes estrangeiros como o belíssimo Ty Siudy Bolsh ne Verneshsia (You Won’t Come Back Here), do artista bielorrusso Dmitri Makhomet, e também em produções goianas como o longa-metragem Terra e Luz, de Renné França, ou o curta Algo do Que Fica, de Benedito Ferreira. Ela é uma pergunta de fundo para que o mexicano El Buzo especule sobre a disposição psicológica de um mergulhador de águas sujas, e ganha a frente no interessante e original Tarja Preta, do pernambucano Márcio Farias.

Neste pequeno grupo de obras já podemos observar a pluralidade formal da Mostra. Temos desde ficções que dialogam com o cinema de gênero (Terra e Luz) a documentários que refrescam uma prática discursiva mais tradicional com trabalho estilístico e muito boa escolha de tema (El Buzo e Tarja Preta). Para além dos destaques acima, também estão representados filões típicos do cinema ambiental, como o filme politicamente engajado (Martírio, Contagem Regressiva, Real Conquista) ou o documentário observacional que instiga uma atenção compassiva ou reflexiva nos espectadores (Histoires de la Plaine, Da Margem do Rio o Mar, Der Block).

O hibridismo que aproximou as linguagens do cinema e da televisão está no humor negro de L’Ours Noir, remetendo aos esquetes tão populares na internet da última década. Em uma linha completamente distinta de hibridismo, Aprés Le Volcan, do francês Léo Favier, dá um exemplo muito bem sucedido de apropriação de imagens de arquivo e ficcionalização da memória.

Por fim, mas não menos importante, os filmes animação têm representantes relevantes. Automatic Fitness, da Alemanha, vem se somar com competência ao subgênero das narrativas circulares, compensando o resgate um tanto clichê da crítica à sociedade mecânica e irracional. Já o impactante Railment, do japonês Shunsaku Hayashi, dá sua própria resposta à questão sobre o homem e o meio, com referências ao surrealismo e ao abstracionismo nas artes visuais.

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