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Moda plus size evolui, mas representantes do movimento classificam como tímida a atual fase do setor

Muito se caminhou, mas ainda é comum que manequins e araras tragam cortes retos, modelos senhoris e etiquetas com valores muito acima da média

Vinícius Olimpio
Estilista e modelo, a goiana Jossana Lauria abriu uma confecção de moda plus
Diomício Gomes
Renata Alves: vida muda depois que conheceu blogueiras plus

Com tudo para ser uma representação da beleza plural, o segmento da moda denominado plus size (do inglês tamanho maior) está em constante evolução. Muito se caminhou, mas ainda é comum que manequins e araras tragam cortes retos, modelos senhoris e etiquetas com valores muito acima da média. Houve ainda uma diferenciação entre moda e movimento plus size: enquanto o primeiro diz respeito a fabricação e tendências de roupas com tamanhos maiores, o último veio para conscientizar quem está acima do peso sobre a importância da autoaceitação.

O termo plus size, que faz referência a modelos com tamanhos iguais ou maiores que 46/GG, carregou durante muito tempo um sentido pejorativo, mas que nos últimos cinco anos foi perdendo força com o engajamento de blogueiras, modelos e atrizes do tipo plus. Na opinião da maioria delas, o fato de grandes marcas terem abraçado diferentes grades de tamanho é uma vitória importante, mas ainda não é o ideal.

Foram essas blogueiras que mudaram a vida da professora e tradutora Renata Alves, de 34 anos. Com manequim 52 e a falta de opções na hora de comprar roupas, Renata recorria às lojas cujas peças pecavam pelo excesso de simplicidade, a sessão masculina ou aos amigos, que traziam novas possibilidades do exterior. “Foi quando eu conheci blogueiras que tinham o corpo mais parecido com o meu e vi que era possível conseguir peças com o caimento bonito e com uma pegada mais jovial”, conta, citando as blogueiras Fluvia Lacerda, Ju Romano e Paris Paula como suas musas inspiradoras. É o caso também da cantora americana Meghan Trainor, que ficou conhecida com letras como “pois você sabe, eu sou mais um corpo violão, não um tipo flauta”.

Renata se empoderou e abriu as portas do guarda-roupa (e da vida) para peças mais ousadas, com cintura marcada, barriga à mostra, gola alta e decotes generosos. “As pessoas em Goiânia são muito preocupadas com o corpo. Você não vê gordas nas baladas. Elas existem, mas estão presas em casa por não terem o que vestir e por falta de autoaceitação. O que o mercado precisa entender é que há demanda e que a população que está acima do peso quer se vestir bem, esteticamente falando. Não é só conforto. É um corte diferente e uma estampa mais ousada”, pontua

Tendências

O recado acertou em cheio a estilista e modelo plus Jossana Lauria, que há cerca de um ano e meio está à frente da goiana Joss – marca plus size fiel às tendências internacionais com coleções renovadas a cada seis meses (primavera, verão, outono e inverno). “A Joss nasceu com o objetivo de criar produtos com design e mostrar que a moda precisa sim ser democrática. Eu sempre fui gorda e até por experiência própria identifiquei no mercado uma lacuna no que diz respeito às numerações que vão de 48 a 58. A situação fica ainda mais preocupante quando se trata da moda plus masculina.”

Segundo a estilista, que veste 54, as mulheres plus já precisam se preparar para o inverno, que virá com muito veludo, bordados e peças brilhosas, além das modelagens mais largas, como as jaquetas bombers. “Todo mundo pode tudo. Não podemos ficar reproduzindo esse discurso de que existe roupa para gordo, ou que quem está acima do peso não pode usar nada largo demais. A questão é se perguntar o que você quer vestir, de qual revolução fashion você quer participar.”

Além da Joss, algumas marcas famosas parecem ter entendido bem o recado. A Duloren foi a primeira marca de lingerie a apostar nesse público, com o slogan “Gostosa demais para usar 38”. Outro exemplo importante é a Nike e seus tamanhos G, GG e GGG de camisetas, tops, leggings, shorts e blusões. As lojas de departamento Renner, C&A, Riachuelo, Marisa e a americana Forever 21 também já aderiram aos tamanhos maiores – apesar das duas últimas ainda não terem trazido as peças para Goiânia.

Oportunidade de negócios

Um outro fato importante é que a moda plus não se limita aos tamanhos maiores, mas também aos diferentes tipos de corpos. A modelagem das peças encontradas no mercado muitas vezes vão contra a filosofia de aceitação corporal tão defendida até mesmo por quem está dentro do peso. Assim, com o aquecimento da demanda, a moda plus tem chamado atenção do mercado – seja da grande indústria ou dos pequenos negócios, que trabalham com produções em menor escala ou quase sob medida.

Segundo dados da Associação Brasileira do Vestuário (Abravest), o mercado plus size cresce 6% anualmente e movimenta cerca de R$ 5 bilhões. Esse porcentual corresponde a cerca de 300 lojas físicas e aproximadamente 60 virtuais. A expectativa, segundo a associação, é de um crescimento de pelo menos 10% ao ano.

Tudo para atender a um público que está cada vez maior: dados do Ministério da Saúde mostram que mais da metade da população brasileira, 52,5%, está acima do peso e que o índice de pessoas acima de 18 anos com obesidade é de 17,9%. Segundo a nutricionista e coordenadora do Departamento de Doenças Não-transmissíveis da Secretaria Estadual de Saúde, Ana Paula Rodrigues, em Goiás a situação não é muito diferente. Em 2014, 31,45% dos adultos tinham sobrepeso, enquanto 14,11% eram obesos. Em Goiânia, entre 2006 e 2016, o sobrepeso aumentou de 38,3% para 48,5% e a obesidade, de 9,2% para 16,3%.

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