Movimento Retaguarda. É como Ciro Barcelos está chamando o conjunto formado pelo lançamento do livro e pela peça e a exposição que, a partir de hoje, ocupam o Teatro Glauce Rocha, no Rio, celebrando os 40 anos dos Dzi Croquettes. Integrante do revolucionário grupo, Barcelos explica que a expressão vai além do saudosismo ou até do conservadorismo que pode sugerir uma primeira leitura – na verdade, está mais para o caráter subversivo da interpretação mais maliciosa: “É uma trincheira cultural para preservar essa vanguarda perdida, brasileira, tropical, que está à deriva”. A força e a originalidade tropical do grupo podem ser avaliadas sob óticas diferentes por quem for ao Glauce Rocha. A exposição Dzi Croquettes – Te Contei?, que será aberta hoje, às 18 horas, traz 60 fotos de peças e bastidores (muitas inéditas), além de figurinos originais e cartazes. Na ocasião, será lançado o livro homônimo, com imagens e depoimentos de membros do grupo, como Barcelos, Bayard Tonelli, Claudio Tovar, Paulette e Lennie Dale. E no dia 29 chega à casa o espetáculo Dzi Croquettes em Bandália, montado em 2012 – início do Movimento Retaguarda. “Não quis montá-la por um capricho artístico, mas por uma insatisfação com o cenário atual do teatro brasileiro, que está estagnado, muito careta. Estamos perdendo nossa tropicalidade artística, antropofágica, dando lugar a uma linguagem teatral importada de musicais americanos que não acrescenta nada à nossa própria linguagem teatral”, avalia Barcelos. “Nosso teatro musical está oprimido porque essas montagens americanas estão virando padrão de qualidade. Enquanto artista, estou pouco me lixando para A Noviça Rebelde, Judy Garland, nem os americanos mais querem saber disso. Pus a peça em cartaz para gritar isso. É um espetáculo novo, com jovens atores, e que traz de novo esse conceito subversivo dos Dzi Croquettes.” Atmosfera libertária A exposição, no mesmo espírito da peça, procura trazer a atmosfera libertária que o grupo instaurou em meio à ditadura militar. “O conceito é recuperar um pouco o clima daqueles anos 1970 e como o grupo Dzi Croquettes se posicionava dentro daquele momento”, explica Barcelos. “Tem uma reconstituição de nosso cenário, as paredes trazem pinturas nossas. E são projetadas imagens feitas em Super-8, há uma maravilhosa de Lennie Dale dançando.” Organizado por Bianca Clark, Juliano Werneck e Radha Barcelos, o livro Dzi Croquettes – Te Contei? reúne em 72 páginas fotos e depoimentos de 11 integrantes, falando sobre o começo, os espetáculos e o fim do grupo (retratado no premiado documentário de Tatiana Issa e Raphael Alvarez, em 2009). Cada capítulo tem uma foto de abertura feita em 1973 por Antonio Guerreiro. “A importância do livro, como da exposição, é afirmar que esse grupo existiu, foi revolucionário e influenciou coisas que vieram depois, como o TV Pirata, o besteirol. Eles vêm reafirmar o sentido libertário de se relacionar com o palco, uma proposta de liberdade de expressão, sexual e artística.” Barcelos crê que o espírito dos Dzi Croquettes se afina com as atuais manifestações nas capitais brasileiras: “Postei no Facebook fotos da passeata com a legenda: ‘O sonho não acabou’. Estou fazendo uma campanha para que os artistas saiam de suas mansões e liderem essas manifestações, como fizemos nos anos de chumbo. Só espero não ser exilado dessa vez. Se bem que o exílio saiu pela culatra, porque fizemos sucesso lá fora e os militares tiveram de nos engolir”, lembra o ator, notando que seu espetáculo será apresentado no Central Park em setembro e chegará ao circuito Off-Broadway em 2014. “Mas o mais importante é fazer essa revolução aqui.”