Exatamente hoje faz 50 anos que o escritor goianiense Gabriel Nascente pegou emprestado caneta especial, terno, gravata e abotoadura do irmão mais velho para descer a Avenida Goiás, rumo à livra do extinto Bazar Oió. Nervoso, ele esperava encontrar no endereço alguns dos nomes mais proeminentes da intelectualidade goiana no famoso ponto cultural dos anos 1960. Eles, por sua vez, talvez esperassem um homem formado, como autor do livro Os Gatos, obra poética de estreia de Nascente.“Devem ter ficado surpresos com o 'piolho' mirrado que apareceu”, lembra o poeta, aos risos. A pouco mais de 10 dias de completar 16 anos, o rapaz realizava naquele momento o sonho de publicar um livro. De origem humilde, filho de um dos pioneiros de Goiânia, um carpinteiro que ajudou a erguer a cidade, Nascente tinha a primeira oportunidade manter contado com proeminentes como Eli Brasiliense, Bernardo Élis e Gilberto Mendonça Teles. “Parece que foi ontem”, diz.O lançamento chegou a ser notícia no POPULAR, que na ocasião chamava Gabriel Nascente de “poeta precoce”. Foram mais de 100 volumes autografados naquela noite, que deixaria a vida do poeta marcada para sempre. “Foi como quebrar um tabu reinante, de ter um jovem de origem humilde entre letrados. Eu nunca mais cometi qualquer tipo de adultério literário e nunca trai minha musa, que é a poesia”, filosofa.ProduçãoEm meio século de atuação foram mais de 60 livros publicados, o que rende uma média de mais de um livro por ano. Embora a poesia tenha se tornado o esteio do escritor que sobrevive dos rendimentos de servidor do Tribunal de Justiça de Goiás, a prosa também se inseriu em sua trajetória, entre pequenas narrativas, uma novela, ensaios e crônicas, boa parte delas publicadas nas páginas do POPULAR.Entre o legado poético, uma compilação prevista para três volumes de cerca de mil páginas cada está prevista para ser lançada ainda neste ano em comemoração ao cinquentenário de carreira literária. Um novo livro também está no forno, O Redemoinho da Imprensa, em que homenageia a trajetória do jornalista Batista Custódio, criador do jornal Diário da Manhã e do extinto Cinco de Março.O novo título só aguarda liberação da editora para ser lançado e pode se tornar motivo para a quebra de um jejum que já dura cerca de 15 anos: depois de muito tempo o autor deve voltar a fazer uma noite de autógrafos. “Até então eu tinha deixado de fazer este tipo de evento por ser muito cansativo. Mas acho que essa agora é uma ocasião para voltar.”Completando o ano de comemoração, Nascente espera ainda a conclusão do trabalho de curadoria de um pesquisador de línguas latinas, que vai reunir produções de vários poetas brasileiros, incluindo poemas seus. Se ainda há um sonho a ser realizado pelo integrante da Academia Goiana de Letras, ele é um dia se tornar também um imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL).De pouco a pouco, o desejo ganha corpo. Se depender dele, o caminho já está aberto. Segundo ele, o contato com os imortais brasileiros e participações nos famosos chás da ABL são cada vez mais frequentes.