Para a psicanalista Luciene Godoy, a situação mais violenta pós-trauma é a dificuldade que a pessoa tem de se situar na vida, na nova realidade, que é completamente diferente. Sim, porque o trauma intenso, que provoca o estresse pós-traumático, faz com que a pessoa mude de identidade. “Há pessoas que não dão conta de ser o outro depois daquele evento”, relata. Luciene destaca que a reação depende muito da estrutura psíquica da pessoa que sofre esse revés. “Algumas reagem de maneira amena, outras são parcialmente afetadas e outras sucumbem”, observa. Ela evoca uma conclusão de Freud, pai da psicanálise, para exemplificar o que ocorre: quando um cristal bate no chão e se quebra, se os fragmentos forem olhados ao microscópio, será possível ver que onde se quebrou havia uma rachadura. “Com o trauma acontece da mesma forma. Algumas pessoas ‘se quebram em pedaços’”, relata. Tudo depende da estrutura. Por isso, há pessoas que podem sair da realidade, delirar e até apresentar reações violentas. “São esperadas reações variadas e nesse momento as pessoas vão precisar de ajuda especializada”, esclarece Luciene. Ela faz outra analogia, com um terremoto. “Por que certas casas caem, outras não?”, indaga. “É pela estrutura. Por isso, os japoneses fazem prédios flexíveis, como se fossem bambus, para enfrentar os frequentes terremotos”. A flexibilidade, assinala a psicanalista, é um recurso que permite ao indivíduo se reposicionar diante da situação posterior ao “terremoto”.