Ao menos 108 casos graves envolvendo uso de anticoncepcional por goianas foram registrados em um levantamento informal feito pela professora universitária Carla Simone Castro, de 41 anos, ela também uma vítima do uso da pílula. A professora deu visibilidade para o debate sobre os riscos do medicamento sem o correto encaminhamento médico em setembro do ano passado, quando divulgou um vídeo em sua página no Facebook contando sobre seu problema: trombose cerebral como efeito colateral pelo uso da pílula.Com fortes dores de cabeça, ela percorreu diversos profissionais de saúde em busca de diagnóstico até a trombose cerebral ser identificada. Carla ficou com a visão comprometida por 55 dias, enxergando cerca de 30%. “Tudo duplo e embaçado”, conta. O problema ocorreu sete meses depois de ela ter começado a tomar pílula para combater miomas (tumores benignos) no útero. Carla sofreu três acidentes vasculares cerebrais (AVCs) e ainda faz tratamentos médicos para minimizar as sequelas.A professora mantém a página “Vítimas de Anticoncepcionais. Unidas a Favor da Vida” no Facebook para alertar mulheres quanto aos riscos e evitar que mais pessoas sejam vítimas da desinformação. Já conseguiu reunir mais de 1,3 mil relatos de mulheres com algum tipo de sequela. Carla aponta que, por dia, o site chega a receber cinco novos depoimentos. Ela decidiu fazer uma pesquisa com essas pessoas e os números apurados são um alerta.PesquisaDas entrevistadas, 734 tiveram trombose, sendo 28% cerebral e 32% venosa profunda. Para a professora, o número mais alarmante é o de que 89% declarou que o ginecologista não alertou sobre a trombose associada ao uso do anticoncepcional.“Os médicos, geralmente, não passam essa informação adequadamente. Quando questionados, chegam a dizer que apresentar algum problema é muito raro. Mas o que eles não dizem é que, quando ocorre, pode trazer sequelas gravíssimas”.A professora faz questão de ressaltar que não é contra o medicamento, mas que é preciso existir mais rigor na prescrição.RelatosDepois que a página “Vítimas de Anticoncepcionais. Unidas a Favor da Vida” foi criada na internet, Carla passou a receber depoimentos de mulheres que já apresentaram algum tipo de sequela. Antoniella Fernanda Mendanha, de 31 anos, é biomédica e uma das vítimas da trombose. Ela passou a sentir dores nas costas e depois de percorrer diversos especialistas descobriu que estava com coágulos nos dois pulmões. “Tive infarto do pulmão esquerdo. Terei de tomar anticoagulantes para o resto da vida e tenho dificuldade para respirar”. Mesmo sendo profissional da área médica, ela não sabia dos riscos que o medicamento poderia causar e entende que o tema precisa ser mais divulgado. Ela também acredita que as mulheres precisam cobrar exames preventivos de seus médicos.A farmacêutica Josane Vigillato, de 24 anos, também é uma vítima. Ela mora em São João da Paraúna, mas vem à Goiânia com frequência. Em dezembro, depois de sentir muita dor de cabeça, desmaiou. Também precisou passar por diversos especialistas até descobrirem que seu problema era uma trombose cerebral. “Fui em neurologistas e todos diziam que era apenas uma enxaqueca e sinusite. No fim, depois de muitos exames, uma médica me perguntou se eu tomava anticoncepcional. Era esse o problema”. Josane vomitava e desmaiava com frequência. “Estou pagando pela falta de um exame que poderia ter me livrado desses problemas, que vão me acompanhar para sempre”. Ela é dona de uma farmácia e desde que descobriu a causa de seu mal estar, tenta alertar mulheres que compram o medicamento. “Não é para parar de usar, mas usar apenas com a orientação de um ginecologista”.