“Mundo, mundo, vasto mundo. Se eu me chamasse Raimundo seria uma rima, não seria uma solução.” O pequeno trecho do poema Sete Faces, de Carlos Drummond de Andrade, é a mais perfeita tradução de Raimundo Arruda Sobrinho, o morador de rua que se transformou em celebridade na capital paulista. Sua história voltou a ser lembrada na semana passada quando ele foi entrevistado no programa Encontro com Fátima Bernardes, da TV Globo. Vivendo em Goiânia desde 2012, na casa do irmão caçula, o engenheiro eletricista Francisco, Raimundo mantém a inquietude mental e a produção da escrita que fizeram dele uma figura ímpar na árida São Paulo.Foram mais de 50 anos longe da família que havia ficado no hoje Tocantins, quase 34 nas ruas de São Paulo e cerca de 18 anos num único lugar, a sua “ilha”, na Avenida Pedroso de Morais, no Bairro de Pinheiros. Ali, entre carros e pedestres apressados, passou anos sem ser observado. Vestido com sacos de plástico preto, seu mundo era um banquinho de madeira e pequenos pedaços de papel. Nas minipáginas registrava suas impressões do mundo, datava, colocava o número de série e assinava como O Condicionado. No mundo de Raimundo não há ano 2000. Suas minipáginas têm como referência o ano de 1999 + o número que falta para chegar àquele atual. Ficou tanto tempo sentado na mesma posição que o dorso inclinou.Raimundo, hoje com 75 anos, é outro homem. “Sou uma pessoa felicíssima”, diz. Mas não porque saiu da condição de morador de rua. Ele atribui a felicidade ao fato de ter nascido numa família pobre, mas “legal e bem constituída” e por ser “sadio de corpo e alma”. Impressiona na trajetória de mais de três décadas de marginalidade social de Raimundo a ausência de ingestão de qualquer entorpecente, nem mesmo álcool ou cigarro.Na casa ampla do Jardim Novo Mundo, Região Leste de Goiânia, Raimundo agora tem seu próprio quarto, uma família e muita atenção. Ele passa os dias cuidando das plantas, ajudando os sobrinhos nas tarefas escolares ou escrevendo suas minipáginas com o mesmo método de antes. A pessoa mais próxima é a cunhada Josângela Roberta, de 32 anos. Impulsionada pela filha Emília, então com 9 anos, ela foi a peça fundamental para a mudança radical da vida do ex-estudante, ex-jardineiro e ex-vendedor de livros.Segundo ela, a família tinha notícias esporádicas de Raimundo. Em 2003, ele foi capa do livro Cidade de Todos os Sonhos - São Paulo do Brasil, com fotos de personalidades da capital paulista e textos dos jornalistas Gilberto Dimenstein e Okky de Souza. Ao lado de nomes como Hebe Camargo, Antônio Ermírio de Moraes, Drauzio Varella e Constanza Pascolato, Raimundo aparece como O Poeta da Pedroso. Também neste ano, ele foi personagem do premiado documentário A Margem da Imagem, de Evaldo Mocarzel, sobre mendigos de São Paulo.A pequena Emília encontrou nos guardados de uma tia referências sobre o irmão mais velho que o pai não conheceu. Francisco era um bebê de seis meses quando Raimundo deixou a família para estudar. “Ela insistiu para que fossemos atrás. Eu dizia que seria difícil, mas ela falava que tinha o mesmo nome da avó, que era sangue dele”, conta Josângela. Àquela altura, a publicitária Shalla Monteiro já tinha se encantado pela figura insólita de Raimundo na ilha da Pedroso de Morais. Moradora das proximidades, ela ficou impressionada com a paz de Raimundo escrevendo no meio do burburinho. “Percebi que, por ser uma pessoa especial, a forma de ajudar não era dar nada material, mas algo para reconhecer a pessoa que ele era. Daí tive a ideia de criar a página no Facebook”, conta Shalla. Foi através da rede social que Francisco manteve contato com a publicitária e em seguida com o irmão. A página já foi curtida quase 57 mil vezes e é atualizada por Shalla, que hoje vive em Florianópolis (SC). O vídeo Dois - Shalla e Raimundo - Saindo da Rua, postado no You Tube, mostra como foi encontro que mudou a vida de Raimundo.Por duas ocasiões a publicitária esteve em Goiânia para visitar o amigo e dar continuidade ao projeto do livro de Raimundinho, como costuma chamá-lo. A obra, que reúne parte das minipáginas, está pronta. Alguns livreiros já manifestaram interesse em editá-la.-Imagem (Image_1.515770)