O argumento de que houve mudança no depoimento de um dos acusados do crime resultou na soltura do cartorário Maurício Sampaio, apontado pela polícia como mandante da execução do cronista esportivo Valério Luiz, em 5 de julho de 2012. Ele deixou o presídio às 19h05 de ontem, cinco horas depois de os desembargadores Ivo Fávaro, Nicomedes Borges e o juiz substituto em segundo grau Sílvio Rabuske concederem habeas-corpus pedido pela defesa de Sampaio. O filho da vítima, Valério Luiz Filho, diz que não há fato novo que motive a liberação e acusa manobra para beneficiar o preso. O cartorário, ao sair da cadeia, reafirmou inocência e disse que “a Justiça está aí para fazer justiça” (leia nesta página). A defesa de Sampaio alega que o açougueiro Marcus Vinícius Xavier – que primeiro assumiu a autoria dos disparos e depois disse que apenas providenciou a arma – retirou a acusação de pressão ou ameaça, que havia declarado em depoimento anterior. A alegação, que sustenta a decisão de soltar Sampaio, foi refutada há oito dias pelo relator do pedido de hc, o juiz substituto em segundo grau Jairo Ferreira Júnior (que atua no lugar do desembargador Itaney Campos, em férias). Avelirdes Almeida Pinheiro de Lemos acompanhou o relator. O juiz substituto disse que Marcus Vinicíus, ao mudar sua versão, não justificou a contradição. O julgamento da semana passada foi adiado quando Ivo Fávaro pediu vista dos autos. Nicomedes Borges e Sílvio Rabuske - substituto de Gerson Cintra - preferiram esperar a análise do colega antes de votarem. Ao conhecerem o voto, no início da tarde de ontem, decidiram acompanhá-lo, o que resultou na soltura de Sampaio. Um dos advogados da banca de defesa do cartorário, o criminalista Ney Moura Teles afirma que as novas declarações foram dadas em depoimento prestado “há cerca de 30 dias” no 4º Distrito Policial (DP). “Marcus Vinicíus afirmou não só que o Maurício não tem absolutamente nada com o crime, mas que não conhece o Maurício, nunca ouviu falar nele, jamais foi ameaçado pelo Maurício ou qualquer pessoa a mando do Maurício, nem nunca sofreu nenhum tipo de pressão por parte do Maurício”, disse o defensor. Nulidade Teles disse que vai pedir a nulidade do inquérito que acusa Sampaio de ser o mandante do crime por desavenças relacionadas ao Atlético Clube Goianiense (ACG), clube do qual era vice-presidente. Ele diz que a participação do delegado Alexandre Bruno nas apurações compromete o processo porque ele ocupa o cargo em Minas Gerais, e não em Goiás, o que tornaria seus atos ilegais. O procedimento foi assinado por outros delegados, mas Teles diz que isso “não importa”. “Não importa essa coisa de assinar. O que importa é que é uma pessoa que usurpou a função pública. Isso vai ser usado agora para desmontar (o inquérito). Vamos provar que é um lixo feito por quem nem era delegado.” Valério Filho reage: “Se o Poder Judiciário daqui decretar nulas quaisquer provas do inquérito, no outro dia pediremos à ministra (dos Direitos Humanos) Maria do Rosário para que solicite ao Procurador-Geral da República a federalização do crime do meu pai e acionaremos a Comissão Interamericana de Direitos Humanos.” Valério Filho afirma que o depoimento no 4º DP foi dado ao delegado Manoel Borges de Oliveira e que o procedimento foi aberto em 6 de março para apurar suposto crime da viúva do cronista, sob alegação de calúnia. Ela disse ainda ter ouvido falar que Sampaio teria oferecido dinheiro a Marcus para que ele mudasse sua versão. O novo depoimento do açougueiro teria sido dado durante férias de dez dias do titular da Delegacia de Investigação de Homicídios (DIH), delegado Murilo Polati, que seria responsável pela apuração dos fatos. “Foi tudo armado”, acusa.-Imagem (Image_1.327739)