Uma nova onda de protestos, maior que as anteriores e com um leque de reivindicações mais amplo, voltou ontem a tomar conta das ruas de importantes cidades em diferentes ponto do País e até em cidades dos Estados Unidos, Nova Iorque e Los Angeles. Até o fechamento desta edição, algumas delas ainda eram realizadas. Mais de 200 mil pessoas foram para as ruas. A maior das manifestações, em São Paulo, reuniu 65 mil pessoas, segundo estimativas do Datafolha. Foi a quinta na capital paulista e a primeira sem manifestações de violência.Uma das principais características das marchas de ontem foram expressões de insatisfação e rejeição da política institucional. Em Brasília, os manifestantes conseguiram furar o bloqueio policial e invadiram a área externa do Congresso, aos gritos de “a-ha, u-hu, o Congresso é nosso”. Cartazes com os dizeres “Fora Renan” e “Fora Feliciano” apareceram no ato, referindo-se ao presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-RN) e ao presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, o pastor evangélico Marco Feliciano (PSC-SP). No Rio, as ações foram concentradas diante da sede da Assembleia Legislativa e na Cinelândia. Em São Paulo, representantes de partidos foram impedidos de levantar bandeiras. “Não é comício. Fora partidos”, gritaram manifestantes São Paulo - Na maior passeata desde o começo do Movimento Passe Livre (MPL) em São Paulo, pelo menos 50 mil pessoas (segundo relatório do setor de Inteligência da Polícia Militar às 18 horas) caminharam pacificamente pelas zonas oeste e sul da capital paulista. O grito de guerra pela redução da tarifa de ônibus, metrô e trem - que era originalmente a pauta central - marcou presença, mas o coro foi engrossado por outras demandas como mais educação, fim da violência policial e contra todos os partidos políticos. A marcha seguiu o roteiro ditado pelos organizadores. Sem restrição da Polícia Militar, a passeata teve liberdade para tomar e fechar vias importantes da cidade. Começou com uma concentração no Largo da Batata, na zona oeste, e se dividiu em três: uma parte cruzou os Jardins até a Avenida Paulista; outra pegou a Ponte Eusébio Matoso e Marginal do Pinheiros; e outra pela Avenida Brigadeiro Faria Lima até o Itaim-Bibi. As duas últimas divisões tinham a mesmo destino, a Ponte Octavio Frias de Oliveira. Lá, sobre o Rio Pinheiros, penduraram uma imensa bandeira preta com uma das frases tema da manifestação: “Se a tarifa não baixar, São Paulo vai parar”. Depois de tomar a ponte, os grupos desceram pela Marginal do Pinheiros e foram em direção à Paulista, onde cerca de 2 mil pessoas já marchavam da Consolação ao Paraíso e voltavam. Um grupo até desceu para a Avenida 23 de Maio e fechou a via. Paz Em toda a passeata o clima foi de cessar-fogo entre a Polícia Militar e os manifestantes. Depois de quatro protestos com confrontos entre manifestantes e PM, o governo do Estado mudou de estratégia, chamou o grupo para uma reunião de manhã e descartou o uso da Tropa de Choque. Na Avenida Brigadeiro Faria Lima, só seis PMs acompanhavam marcha de milhares de pessoas, entre eles o major Paulo Wilhelm de Carvalho. “A garantia que vai dar tudo certo é que só estamos nós aqui”, disse o major. “Até porque se não der sou o primeiro a ser trucidado!”, brincou. O máximo de hostilidade com a PM era o grito mais comum de nesta segunda-feira à noite: “Que coincidência: sem polícia não tem violência”. Quando a liderança do MPL informou, durante as negociações com a corporação, que pretendia tomar a Ponte Octavio Frias de Oliveira, o major Wilhelm não reclamou e só comentou: “Vai dar uma boa foto”. Moradores e funcionários de empresas na Avenida Brigadeiro Faria Lima aplaudiam e gritavam palavras de apoio para a passeata. Das janelas, jogavam papel picado e estendiam panos brancos - sinal de apoio aos manifestantes já combinado pelo Twitter e pelo Facebook, com a hashtag #vemprajanela. Sem políticos Representantes do PSTU, PSOL, União Nacional dos Estudantes (UNE) foram vaiados e os militantes tiveram de manter discrição. Continuaram empunhando as bandeiras, mas não gritavam palavras de ordem como nos outros protestos. “Oportunista”, “não é comício” e “sem partidos” foram alguns dos gritos da maioria. “Vejo como positiva essa crítica, pois questiona a corrupção e a forma dos financiamentos de campanha”, disse o deputado federal Ivan Valente (PSOL), presente no protesto. “O negativo é que só por meio dos partidos organizados é possível direcionar as demandas.” Wilson Ribeiro, um dos líderes do PSTU presente na marcha, também lamentou o afastamento. “É uma pena, fica um movimento mais fraco.” Presença maciça nos protestos anteriores, as bandeiras do PT e da Juventude do partido sumiram. A reportagem viu apenas uma, discreta, perto da Estação Faria Lima do Metrô.-Imagem (Image_1.343138)-Imagem (Image_1.343136)-Imagem (Image_1.343137)-Imagem (Image_1.343139)