Cidades

Sem remédio, menina usa medicação vencida

Família, que se mudou para Goiânia para fazer tratamento, reclama de falta de insulina

 

Há 1 ano e 4 meses a vida de Marilene Almeida Neves, de 32, do marido e de seus cinco filhos sofreu uma reviravolta. Depois de meses sendo tratada com se seu único problema fosse vermes, um desmaio revelou que o problema da pequena Magali, de 6 anos, era bem mais grave. A família descobriu que a filha do meio tinha diabetes tipo 1.

Morando em Mambaí, cidade distante 512 quilômetros de Goiânia, as idas e vindas entre os dois municípios se tornaram constante. Tentando facilitar o tratamento de Magali, há seis meses a família mudou-se para Goiânia.

Morando num local cedido pela igreja e contando com a ajuda dos vizinhos, Marilene e o marido, que recebe R$ 700 por mês, precisam se desdobrar para impedir que falte insulina para a filha. Isso porque a insulina e os insumos necessários para o tratamento - agulhas e tiras para medir o nível de glicose - nem sempre estão disponíveis na farmácia da Secretaria Municipal de Saúde (SMS) de Goiânia. “A gente nunca pega tudo que precisa. Uma única vez consegui todos os medicamentos, mas faltaram os insumos”, lembra.

Marilene conta que segunda-feira foi dia de buscar insulina do tipo Lanthus, de aplicação única ao dia, mas estava em falta na farmácia da SMS. Para que a filha não fique sem o medicamento e corra o risco de uma crise, ela está usando o remédio vencido. “Não tenho condição de comprar. Estou usando remédio vencido para não ficar sem nada”, diz. Magali usa, mensalmente, um refil de insulina Lanthus, um da do tipo Humalog e três pacotes de tiras, indispensáveis para aplicação da insulina, já que é a partir da medição que se define a dose que será utilizada. “Como vou aplicar sem medir”, questiona a mãe da criança.

A angústia de Marilene acompanha muitas outras mães que, como ela, não têm condições de arcar com o tratamento dos filhos e necessitam da rede pública para ter acesso aos medicamentos.

A doméstica Ivanete Gonçalves da Silva, de 35, também se vê, todos os meses, diante de respostas negativas quando vai buscar os remédios da filha Amanda, de 14 anos. “A gente tem de ficar ligando para saber se tem. Hoje (ontem) liguei e não tem a Lanthus. Disseram que não tem previsão, que está em processo de compra”, relata.

desde janeiro

Ivanete, que há 5 anos busca o remédio na rede municipal, lembra que o problema é recorrente todo início de ano. Trabalhando com doméstica, ela frisa que não tem condição de custear sozinha o tratamento cujo gasto, só com remédios, gira em torno de R$ 800,00 por mês. “Eu faço tudo para ela não ficar sem, porque não pode. Não tenho condição de arcar com o tratamento, mas quando não pego, arrumo dinheiro emprestado. Quando a gente tá terminando de pagar, começa a faltar de novo”, explica Ivanete.

Marcela Pereira da Silva, de 31, também não tem condições de custear o tratamento do filho Davi, de 5 anos, que há 2 anos e meio necessita da aplicação diária de insulina. Davi tem diabetes tipo 1, mais comum na infância e cujo uso de insulina injetável é indispensável. Marcela não tem dúvidas: “jamais daria conta de bancar o tratamento”.

Quando não tem alternativa, ela substitui a insulina do filho por outra, num ato de desespero para evitar uma crise. “Não consigo pegar a Lanthus há 3 meses. Dizem que está em processo de compra. Este mês, consegui a Humalog e duas caixas de tiras reagentes, que vencem no final do mês e preciso usar de qualquer jeito”, lembra.

Complicações

A endocrinologista infantil Hercília Deusdará Cruvinel explica que a falta da insulina pode provocar uma descompensação aguda, que gera mal-estar imediato, podendo necessitar de internação. A longo prazo, explica a médica, o paciente pode sofrer complicações, como alteração na visão e rins. Hercília assinala que a substituição de uma insulina por outra não deve ser feita sem a indicação do profissional, considerando que as doses e o funcionamento de cada tipo são diferentes.

Ela lembra que a diabetes tipo 1, em que 90% dos casos necessita de uso de insulina injetável, é a mais comum na infância e atinge entre 10% e 15% da população. No caso do tipo 2, maioria dos casos existentes, é possível fazer o controle com uso de medicação oral. A doença, assinala, tem uma carga genética que associada a fatores ambientais, como situações de estresse emocional, podem desencadeá-la.

SMS

A Assessoria de Comunicação da SMS informou que a insulina tipo Lanthus, fornecida apenas a partir de determinação judicial, está em falta esta semana.

Segundo a assessoria de imprensa, o órgão aguarda liberação do empenho para aquisição do medicamento que, por estar em falta no fornecedor, no final de 2011, não foi possível manter estoque suficiente para garantir o abastecimento durante o período em que o orçamento do município fica fechado, impossibilitando a realização das compras.

A assessoria de imprensa informa ainda que a insulina Lanthus é o único medicamento, para pacientesw diabéticos, em falta e também não há desabastecimento de insumos, como tiras reagentes e agulhas.

Cristina Cabral
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