Cidades

Pacientes do Hospital Araújo Jorge utilizam remédios sem prescrição médica, diz pesquisa

Estudo realizado pela UEG constata automedicação. Especialistas recomendam cautela

Cerca de 80% dos pacientes do setor de quimioterapia do Hospital Araújo Jorge, em Goiânia, fazem automedicação relacionada a plantas medicinais. É o que constatou uma pesquisa realizada pela Universidade Estadual de Goiás (UEG). No estudo, os pesquisados citaram mais de 72 espécies utilizadas, e a maioria disse não ter informado ao médico sobre a prática alternativa.

A pesquisa para detectar quais plantas são consumidas pelas pessoas em tratamento contra o câncer aplicou questionários a 198 pacientes oncológicos, entre 2013 e 2015. O resultado surpreendeu e preocupou a bióloga Andréia Juliana Rodrigues Caldeira, responsável pelo estudo. “A maioria dos pacientes tem a ideia de que, por ser natural, não faz mal. Por isso, normalmente não avisam aos médicos que estão fazendo esse uso. Mas essa ideia é equivocada”, destaca.

Andréia explica que são usadas plantas do chamado culto popular. As maneiras mais comuns de consumi-las é por meio de chás, garrafadas e infusões, mas há várias possibilidades e tipos de uso. A pesquisadora reconhece que a sabedoria popular é preciosa, mas destaca que é preciso fazer a investigação científica.

“Quando se consome esses produtos feitos com partes de uma planta medicinal, a pessoa está consumindo várias moléculas, e não apenas um princípio ativo”, esclarece.

Para a pesquisadora, é preciso discutir essa automedicação, assim como a justificativa de que a planta medicinal não faz mal. Ela também diz que muitas espécies, mesmo as que possuem propriedades terapêuticas, podem ser tóxicas de acordo com a dosagem. Alerta ainda para o risco da interação medicamentosa, podendo um tratamento anular a eficácia do outro.

Na avaliação da pesquisadora, o uso de plantas medicinais precisa ter acompanhamento específico. “A eficácia ou toxidade depende da dosagem. Mesmo que haja propriedades terapêuticas, esse uso em baixa dosagem pode não fazer efeito e em alta dosagem pode ser tóxico”, alerta.

De acordo com a pesquisadora, a coleta de dados é apenas o início de um longo trabalho. “Muitas dessas plantas nem têm estudos a respeito delas. Queremos levantar quais delas são mais comuns, identificar espécies utilizadas que não foram estudadas e investigar os princípios ativos para ver se há interação medicamentosa”, explica.

Medicina integrativa

O diretor técnico do Centro de Referência em Medicina Integrativa (antigo Hospital de Medicina Alternativa), Danilo Maciel Carneiro, comentou a pesquisa. Médico e especialista em medicina preventiva, ele destaca que existem plantas com propriedades terapêuticas para diversos problemas enfrentados pelo organismo humano. No entanto, o uso indiscriminado pode ser prejudicial. “Existem plantas de todo jeito: benéficas, tóxicas, alucinógenas e até letais.”

Para Carneiro, saber usar esse recurso, de forma adequada, é essencial. “A pessoa precisa ter orientação de profissionais que conheçam as plantas e saibam se tem interação medicamentosa ou não”, diz o especialista. Ele destaca ainda que, no caso de práticas complementares, é de extrema importância conversar com o médico sobre o uso.

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