Estresse pós-traumático pode atingir vítimas ou familiares de pessoas que passaram por tragédias
Carla Borges 12 de maio de 2012 (sábado)
Cristina Cabral
Semi Aparecida sofreu a dor por ter o marido morto e esquartejado na Casa de Prisão Provisória. Ela tem muitos pesadelos e não consegue trabalhar
Quem vivencia grandes tragédias, como a chacina em uma fazenda em Doverlândia, com sete mortos, ou a queda do helicóptero com sete policiais civis e o assassino confesso das vítimas, corre o risco de ser afetado pelo estresse pós-traumático, distúrbio que pode ter consequências graves. É cada vez maior o número de pessoas que passam por essa experiência dolorosa, que impede que o trauma seja esquecido e superado, especialmente vivendo em cidades cada vez mais violentas, como Goiânia, onde o primeiro quadrimestre deste ano, com 180 assassinatos, foi o mais violento da história e onde o ano de 2011 bateu os recordes de homicídios.
A boa notícia é que o estresse pós-traumático tem cura, desde que o paciente passe por tratamento especializado. Mas ele não pode ser simplesmente menosprezado como um evento que fatalmente será superado com o tempo, porque pode se agravar ao ponto de levar a pessoa ao suicídio ou ainda se tornar crônico, causando um sofrimento permanente e acabar associado a mecanismos de fuga, como a dependência química. Por isso é tão importante o diagnóstico e o acompanhamento bem feitos. “O não especialista pode confundir com ansiedade generalizada, síndrome do pânico, depressão”, diz o psiquiatra Lucio Malagoni.
Para ele, todas as pessoas que passam por situações traumáticas consideradas intensamente estressantes devem ser avaliadas. “Mas deve-se diferenciar, por exemplo, das situações negativas, mas não extremas: posso ter sintomas depressivos quando perco uma pessoa querida, com o fim de um relacionamento, ou ansiosos quando a pressão no trabalho aumenta muito”, pondera Malagoni. Esses casos citados por ele são diagnosticados como transtornos de ajustamento. Já a situação de trauma intenso pode levar a dois tipos de transtorno abordados na psiquiatria.
A situação não precisa necessariamente vitimar a pessoa para desencadear o estresse pós-traumático. Ela também pode vivenciar em outra pessoa significativa. “Ver alguém despedaçado num acidente de trânsito ou sofrer um assalto à mão armada podem levar a isso”, exemplifica Malagoni. Os sintomas do Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT), como é chamado na psiquiatria, são duradouros, ao contrário da reação aguada ao estresse, quando a pessoa fica em estado de choque, que costuma passar em até 30 dias.
Malagoni explica que os sintomas do TEPT se agrupam em três conjuntos: revivescência/evitação, ansiedade e perda de expecatativas. “A revivescência pode ser tão intensa que o indivíduo começa a vivenciar a situação de novo, como se estivesse nela”, explica o psiquiatra. Esse é o “flashback”, amplamente explorado em filmes. Já a perda de perspectivas/embotamento é um dos sintomas mais tristes, porque inclui a perda de confiança em relação ao futuro, perda de perspectivas. “Ocorre uma diminuição de reação normal aos eventos agradáveis e corriqueiros e pode ser confundida com depressão”, exemplifica Malagoni.
A dona de casa Seni Aparecida de Sousa, de 50 anos, vive há seis meses essa situação. Ela emagreceu 12 quilos – não consegue se alimentar, como se a garganta ficasse travada –, não dorme, apesar de tomar medicamentos, e, quando consegue algumas horas de sono, tem pesadelos com o marido, Antenor Torres Ribeiro Filho, morto aos 28 anos no dia 10 de outubro de 2011 dentro de uma cela na Casa de Prisão Provisória (CPP), em Aparecida de Goiânia, com requintes de crueldade.
Antenor foi esquartejado pelos oito colegas de cela. Era uma sexta-feira. No dia anterior, ligou para ela e disse que estava sendo ameaçado. Só no domingo o corpo foi liberado pelo IML. “Quando fecho os olhos, eu o vejo todo cortado. É uma situação terrível, que parece que não vai ter fim jamais”, relata. Seni parou de trabalhar – “no máximo, consigo limpar casa, lavar roupas” –, mudou de casa. “Não tenho perspectiva de nada, nenhuma vontade. Acho que não vou superar”.
Ela não procurou acompanhamento médico nem jurídico, mas sabe que precisa de um advogado para conseguir resolver pendências. Até hoje não conseguiu retirar sequer o atestado de óbito do companheiro, com quem viveu por cinco anos. Toda semana, Seni cumpre um ritual: lava as roupas de Antenor. “Sei que ele não vai voltar, mas é como se fosse”.
Tratamento
Casos como o de Seni e os de tantas pessoas que passam pelo estresse pós-traumático e conseguem superá-lo têm tratamento, que envolve psicoterapia, antidepressivos, eventualmente antipsicóticos e até mesmo anti-hipertensivo. Este último medicamento tem sido usado, relata Lucio Malagoni, para controlar os pesadelos relacionados ao trauma. É claro que eles só podem ser prescritos pelo médico psiquiatra, que vai avaliar a necessidade de uso e de conjugação com outros tratamentos, como a psicoterapia ou a psicanálise.
Não há estudos para quantificar os distúrbios em Goiás, mas a realidade dos consultórios mostra que os casos têm aumentado com a escalada da violência, com a qual eles têm estreita ligação. Para Malagoni, os casos são subdiagnosticados e subnotificados. Essa realidade faz com que a doença alcance uma face ainda mais perversa: a cronificação, quando ocorrem suicídios e há milhares de relatos de busca de álcool e drogas como alívio, perda de empregos, incapacitação para o trabalho, dissolução familiar.
“Pode se estender para a vida toda”, alerta Malagoni. Drogas e álcool são buscados como alívio, o que faz com que essas pessoas continuem revivendo o trauma, tendo esse sofrimento, acrescido de uma dependência química.
Cevam ajuda mulheres e crianças na superação
12 de maio de 2012 (sábado)
Geralmente, eles chegam debilitados, com medo, com dificuldade até para se alimentar – outros comem demais –, não querem sair, nem para ir à escola ou para os passeios programados. Adolescentes voltam a fazer xixi na cama. Crianças tornam-se agressivas com as outras. Choro e pesadelos são frequentes. É assim que chegam ao Centro de Valorização da Mulher (Cevam) Consuelo Nasser, em Goiânia, mulheres e crianças vítimas de violência.
O Cevam é referência nesse tipo de atendimento e, desde abril de 2000, mantém o abrigo, que na sexta-feira contava com 58 pessoas, entre mulheres, crianças e adolescentes (o número varia, porque novas vítimas chegam quase que diariamente). Graças a uma rede de profissionais, a grande maioria voluntários, são frequentes também as histórias de superação e de sucesso. O Cevam é praticamente o único abrigo com essas caraceterísticas no Estado.
Para Maria das Dores Dolly Soares, diretora da instituição, o maior trauma para as vítimas de violência não é físico, embora o abrigo receba pessoas mutiladas, a maioria por ex-companheiros. “A maior dor é na alma, esse é o maior sofrimento”, atesta. “Não há medicação para cura imediata, esse processo é longo e doloroso, mas temos conseguido ajudar, graças à atuação dos nossos voluntários”.
Dolly conta que entre as mulheres é frequente o medo de se relacionar com amigos e mesmo de pensar em ter novos companheiros. “Muitas abominam a ideia de ter novos relacionamentos”. Entre as crianças, dificuldades na escola e agressividade são mais comuns. Para manter e ampliar os atendimentos, o Cevam precisa de novos voluntários, em várias áreas. “Quem quiser ser voluntário deve nos procurar, estamos com as portas abertas”, diz Dolly.
Para a psicanalista Luciene Godoy, a situação mais violenta pós-trauma é a dificuldade que a pessoa tem de se situar na vida, na nova realidade, que é completamente diferente. Sim, porque o trauma intenso, que provoca o estresse pós-traumático, faz com que a pessoa mude de identidade. “Há pessoas que não dão conta de ser o outro depois daquele evento”, relata. Luciene destaca que a reação depende muito da estrutura psíquica da pessoa que sofre esse revés. “Algumas reagem de maneira amena, outras são parcialmente afetadas e outras sucumbem”, observa.
Ela evoca uma conclusão de Freud, pai da psicanálise, para exemplificar o que ocorre: quando um cristal bate no chão e se quebra, se os fragmentos forem olhados ao microscópio, será possível ver que onde se quebrou havia uma rachadura. “Com o trauma acontece da mesma forma. Algumas pessoas ‘se quebram em pedaços’”, relata. Tudo depende da estrutura. Por isso, há pessoas que podem sair da realidade, delirar e até apresentar reações violentas.
“São esperadas reações variadas e nesse momento as pessoas vão precisar de ajuda especializada”, esclarece Luciene. Ela faz outra analogia, com um terremoto. “Por que certas casas caem, outras não?”, indaga. “É pela estrutura. Por isso, os japoneses fazem prédios flexíveis, como se fossem bambus, para enfrentar os frequentes terremotos”. A flexibilidade, assinala a psicanalista, é um recurso que permite ao indivíduo se reposicionar diante da situação posterior ao “terremoto”.