27 de junho a 04 de julho de 2008

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OPINIÃO

“Temos um conjunto de fortes compradores, que
permitem ao País não perder ritmo nas exportações”.

Bovinocultura a passos largos


Décio Ribeiro

No início do ano, logo após o anúncio do embargo europeu à carne brasileira sob o discurso da ausência de rastreabilidade em nosso rebanho, alarmistas de plantão já deram a carta da crise: a pecuária nacional entrará em retrocesso. Câmaras setoriais, órgãos do setor e diversos ativistas pró-carne brasileira trataram de questionar, estudar, apresentar propostas e discutir, enquanto os setores internacionais “interessados” sorriam com o otimismo de quem tomaria nossas gôndolas.

Sob o nervosismo de uma possível crise, o mercado respondeu de imediato com baixas. Segundo a Scot Consultoria, logo após o embargo, alguns frigoríficos chegaram a pagar até R$ 10 a menos pela arroba em determinadas praças. A discussão em torno da lista de 2,8 mil fazendas aptas para exportação - inicialmente liberada pelo Ministério da Agricultura e negada de imediato pela União Européia – foram pauta das seções de agronegócios dos jornais de todo o País.

Nesse período, amargamos uma retração de 24% nas exportações e, conseqüentemente, de 10% no valor de nosso produto no mercado interno. Curiosamente, segundo o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada da USP (Cepea), a arroba terminou o mês com alta de 1,45% em relação ao mês anterior, de R$ 74,40, em 31 de janeiro, para R$ 75,48, em 29 de fevereiro. Hoje, sem embargo, temos apenas 95 propriedades autorizadas a exportar para a Europa.

Como é possível, mesmo com a forte restrição dos europeus – responsáveis por 31,6% ou US$ 1,4 bilhão da receita de exportação em 2007 - que a carne bovina brasileira continue valorizada? Demanda forte, retenção de fêmeas em regiões de alta produção (como o Mato Grosso do Sul), enfim, há uma série de fatores a serem considerados. O fato é que o pecuarista, exportador ou não, trabalha com o foco na produtividade e lucratividade.

No indicador da Bolsa de Mercadorias & Futuros, a arroba gira acima dos R$ 80 e o mercado futuro já negocia contratos a mais de R$ 95 para dezembro. Especialistas já apostam que a arroba vai passar dos R$ 100 em 2009.

Apesar do grande aumento nos custos de produção nos últimos cinco anos (56%) frente à valorização da arroba (23%), o crescimento de 1,6% no consumo interno previsto pela Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) para 2008 - caso o Produto Interno Bruto (PIB) cresça 4,5% - traz uma confiança na rentabilidade da produção.

É preciso ressaltar, ainda, a diversidade genética que nossas condições climáticas permitem cultivar nos pastos brasileiros. São mais de 20 raças diferentes. Além disso, temos um conjunto de fortes compradores que permitem ao país não perder ritmo nas exportações.

Não vamos nos abster de nossas velhas e urgentes metas, como a rastreabilidade - que não é luxo e, sim, fundamental na pecuária moderna, além de exigência de um mercado cada vez mais preocupado com procedência, segurança alimentar, bem-estar animal e preservação do meio ambiente. No entanto, precisamos amadurecer o conhecimento sobre nossas próprias capacidades para sermos agentes e não reféns do mercado.

A suspensão do bloqueio contra a carne brasileira pela O organização Internacional de Epizootíases (OIE) demonstra o quanto o planeta precisa da produção alimentícia do “celeiro do mundo”, embora reforce mais uma vez que precisamos fazer a lição de casa e manter a eficiência na sanidade do rebanho e o trabalho de erradicação da febre aftosa. Depende apenas de nós transformar todo esse potencial em divisas.

Décio Ribeiro é diretor do Agrocentro, empresa promotora da Feicorte.

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