09 a 15 de maio de 2008

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OPINIÃO

“O Brasil tem um enorme potencial para passar da condição
de importador líquido para a de exportador de arroz.”


Beatriz
Pinheiro

A vez do arroz tropical

O presente panorama de suspensão das transações comerciais de arroz por parte de exportadores tradicionais, corrida por estoques e expressiva elevação do preço do produto, com desdobramentos até no nosso mercado, não era previsto tão cedo. Essa pressão, acelerada por acidentes climáticos, tende a permanecer em face da demanda derivada do aumento da população e do aumento da renda de uma parcela significativa de consumidores com pouco acesso anterior ao mercado até então.

Apesar do aumento dos preços internos, o Brasil encontra-se em situação confortável quanto ao abastecimento. Na safra 2006/07 o País produziu 11,3 milhões de toneladas (base casca). Na presente safra, a estimativa é 12 milhões de toneladas para uma demanda interna de 13 milhões de toneladas.

Contudo, o suprimento atual é de 14,7 milhões de toneladas, derivadas da produção, estoques de passagem e importações. Assim, existe margem para o Brasil exportar na mesma quantidade comercializada no exterior no ano passado, que foi da ordem de 400 mil toneladas.

Destacamos que o Brasil tem um expressivo potencial para passar da condição de importador líquido para a de exportador de arroz. Temos área agricultável e água em abundância. Além disso, somos um dos poucos países do mundo onde o ecossistema de terras altas desempenha importante papel complementar ao ecossistema de várzeas. Atualmente, as várzeas subtropicais respondem por quase 70% da produção nacional sob o sistema de cultivo irrigado. Já o ecossistema de várzeas tropicais ainda é pouco explorado com a produção de arroz. Pouco mais de 100 mil hectares são cultivados, entre Mato Grosso do Sul, Tocantins, Roraima, Maranhão e Goiás, dentre outros.

Destaca-se o enorme potencial de várzeas, especialmente na região Norte do país. Contudo, incorporá-las à produção implica em altos investimentos com infra-estrutura, além de conformação à legislação ambiental.

Por outro lado, no ambiente tropical, predomina o cultivo do arroz sob o ecossistema de terras altas. A existência de grandes extensões de áreas de Cerrado já desmatadas, contínuas e mecanizáveis dotam o nosso país de uma vantagem competitiva ímpar.

Portanto, em curto prazo, o Brasil teria condições de produzir excedentes ampliando a área cultivada com arroz de terras altas, inserido na renovação de pastagens degradadas ou em sistemas de produção de grãos, evitando-se a abertura de áreas.

O arroz de terras altas pode se expandir também para microrregiões classificadas como de baixo risco climático, respeitando-se as recomendações técnicas, como no caso do centro-norte do Mato Grosso, norte do Tocantins, Triângulo Mineiro, sul de Minas Gerais e sudoeste e sul de Goiás.

Ademais, a aparência do grão das cultivares de arroz de terras altas, do tipo longo-fino, não permite distingui-la das do irrigado. Contudo, a maior estabilidade, inerente ao sistema irrigado resulta em produto de melhor aparência e padrão.

Conclui-se que o arroz brasileiro pode ter um papel relevante na segurança alimentar de outros países, ao ajustar a área cultivada no ambiente tropical para produzir excedentes. Contudo, esta não pode ser uma estratégia ocasional e, sim, devidamente acordada entre as cadeias produtivas dos dois ecossistemas, amparada por políticas e investimentos públicos e privados e, por fim, amparada pela pesquisa.

Beatriz da Silveira Pinheiro, chefe-geral da Embrapa Arroz e Feijão.

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