OPINIÃOO
Brasil tem um enorme potencial para passar da condição
de importador líquido para a de exportador de arroz.

Beatriz
Pinheiro |
A vez do arroz tropical
O presente panorama de suspensão das transações
comerciais de arroz por parte de exportadores tradicionais, corrida por estoques e
expressiva elevação do preço do produto, com desdobramentos até no nosso mercado, não
era previsto tão cedo. Essa pressão, acelerada por acidentes climáticos, tende a
permanecer em face da demanda derivada do aumento da população e do aumento da renda de
uma parcela significativa de consumidores com pouco acesso anterior ao mercado até
então.
Apesar do aumento dos preços internos, o Brasil
encontra-se em situação confortável quanto ao abastecimento. Na safra 2006/07 o País
produziu 11,3 milhões de toneladas (base casca). Na presente safra, a estimativa é 12
milhões de toneladas para uma demanda interna de 13 milhões de toneladas.
Contudo, o suprimento atual é de 14,7 milhões de
toneladas, derivadas da produção, estoques de passagem e importações. Assim, existe
margem para o Brasil exportar na mesma quantidade comercializada no exterior no ano
passado, que foi da ordem de 400 mil toneladas.
Destacamos que o Brasil tem um expressivo potencial para
passar da condição de importador líquido para a de exportador de arroz. Temos área
agricultável e água em abundância. Além disso, somos um dos poucos países do mundo
onde o ecossistema de terras altas desempenha importante papel complementar ao ecossistema
de várzeas. Atualmente, as várzeas subtropicais respondem por quase 70% da produção
nacional sob o sistema de cultivo irrigado. Já o ecossistema de várzeas tropicais ainda
é pouco explorado com a produção de arroz. Pouco mais de 100 mil hectares são
cultivados, entre Mato Grosso do Sul, Tocantins, Roraima, Maranhão e Goiás, dentre
outros.
Destaca-se o enorme potencial de várzeas, especialmente na
região Norte do país. Contudo, incorporá-las à produção implica em altos
investimentos com infra-estrutura, além de conformação à legislação ambiental.
Por outro lado, no ambiente tropical, predomina o cultivo
do arroz sob o ecossistema de terras altas. A existência de grandes extensões de áreas
de Cerrado já desmatadas, contínuas e mecanizáveis dotam o nosso país de uma vantagem
competitiva ímpar.
Portanto, em curto prazo, o Brasil teria condições de
produzir excedentes ampliando a área cultivada com arroz de terras altas, inserido na
renovação de pastagens degradadas ou em sistemas de produção de grãos, evitando-se a
abertura de áreas.
O arroz de terras altas pode se expandir também para
microrregiões classificadas como de baixo risco climático, respeitando-se as
recomendações técnicas, como no caso do centro-norte do Mato Grosso, norte do
Tocantins, Triângulo Mineiro, sul de Minas Gerais e sudoeste e sul de Goiás.
Ademais, a aparência do grão das cultivares de arroz de
terras altas, do tipo longo-fino, não permite distingui-la das do irrigado. Contudo, a
maior estabilidade, inerente ao sistema irrigado resulta em produto de melhor aparência e
padrão.
Conclui-se que o arroz brasileiro pode ter um papel
relevante na segurança alimentar de outros países, ao ajustar a área cultivada no
ambiente tropical para produzir excedentes. Contudo, esta não pode ser uma estratégia
ocasional e, sim, devidamente acordada entre as cadeias produtivas dos dois ecossistemas,
amparada por políticas e investimentos públicos e privados e, por fim, amparada pela
pesquisa.
Beatriz da Silveira Pinheiro,
chefe-geral da Embrapa Arroz e Feijão. |