Goiânia, 27 de agosto de 2008

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“Não é falta de respeito um candidato apontar defeitos em
uma gestão. O debate não é pessoal, é político.”

A saúde no debate eleitoral

O debate eleitoral em Goiânia começou finalmente e, não por acaso, pela saúde. Autor do livro A Cabeça do Eleitor (Record), Alberto Carlos Almeida acredita que o eleitor sabe muito bem distinguir as competências de um prefeito, de um governador e do presidente da República. Segundo ele, o eleitor entende que a geração de empregos e o controle da inflação são assuntos para uma campanha de presidente da República; que segurança pública e investimentos em infra-estrutura cabem ao Estado e ao prefeito, os assuntos que afetam o dia a dia da população, como transporte coletivo, educação, saúde, etc.

Essa compreensão combinada com a percepção do eleitor de que foi na área de saúde que o prefeito Iris Rezende teve o seu pior desempenho à frente da Prefeitura de Goiânia (pesquisa Serpes 13/10/07) jogaram o tema no olho do furacão: de um lado a demanda da população por melhoria nos serviços e, de outro, a possibilidade da oposição expor uma fragilidade administrativa do bem-avaliado prefeito. Não podia dar em outra coisa.

O que espantou foi a reação irritada do prefeito ao primeiro programa eleitoral de Sandes Júnior com críticas ao atendimento de saúde por parte do município. No sábado, um dia depois da exibição do programa, Iris pediu respeito a seu adversário e disse que se há “caos” na saúde é por que o Estado não investe os 12% constitucionais no setor. Depois ele reclamou para aliados que estava em seu canto fazendo campanha, mas que, se os adversários querem o confronto, ele estaria pronto para entrar na briga.

Essa reação até seria compreensível em um político com pouca experiência. Não é o caso de Iris, escolado em uma carreira que completará 50 anos agora em outubro. Iris já disse algumas vezes que a violência (incluindo a verbal) faz parte da política e que é próprio da atividade um adversário criticar o outro, e que, mesmo quando este não tem o que dizer contra o outro, inventa. Sandes Júnior está em campanha e se ele pretende mesmo honrar essa candidatura precisará arriscar e fazer críticas a seu adversário, que está na casa dos 70% das intenções de voto, segundo a última pesquisa Serpes/O POPULAR.

Para crescer na preferência do eleitor, o candidato do PP terá de se virar para tirar votos de Iris, daí os ataques diretos. Se o prefeito conhece bem as regras do jogo político por que ele reagiu com tanta indignação? Por que cedeu munição ao adversário, que não só ironizou sua irritação, propondo que ele tomasse maracujina para se preparar para as próximas críticas, como também se aproveitou do fato político gerado pelo próprio prefeito, que valorizou as críticas de Sandes à administração. Curioso, mas o experiente Iris alimentou um fato que poderia ter ficado nos limites do horário eleitoral e deu munição para Sandes continuar na sua pregação de que há um “caos” no atendimento à população nos Cais e postos de saúde em Goiânia.

A campanha eleitoral ocorre numa arena; no centro estão todos os candidatos e, ao redor, o eleitor, que a tudo assiste para se decidir no dia em que for colocar seu voto na urna. Não existe campanha isolada, cada um trabalhando em seu canto para convencer o eleitor.

Sandes tem uma tarefa árdua. Ele já tem as suas próprias dificuldades e limitações eleitorais a romper; está exposto na arena e precisa, pelo menos, conseguir se apresentar como um candidato em condições de disputar o cargo, de se mostrar atento aos problemas da cidade e de seu eleitor. Se ele se encolher em seu canto, terá dificuldades não só nesta eleição como problemas sérios para manter sua carreira futuramente. Não é falta de respeito um candidato apontar defeitos em uma gestão. O debate não é pessoal, é político. Ninguém é obrigado a concordar com ele.

Iris tem todo o direito de responder aos ataques, desmentir o que considerar mentira, mostrar o que fez. Caberá ao eleitor avaliar os dois lados, o que é invenção, ou exagero e o que é procedente. A campanha existe para isso, um mostra o que fez e o que pretende fazer e o outro tenta desconstruir a imagem de quem fez para se mostrar capaz de fazer mais e melhor.

A reação do prefeito também teve um efeito colateral. Iris puxou para 2008 o debate de 2010 ao responsabilizar o Estado pelas dificuldades do setor de saúde em Goiânia. Pela primeira vez, ele fez uma crítica direta a Alcides Rodrigues, o que vinha evitando fazer desde a posse do governador. O prefeito pensou duas vezes antes da crítica, tanto que ontem elogiou o governador por ter liberado verbas para a saúde.

Iris estava entre os peemedebistas que diziam que a responsabilidade pelos déficits entre receita e despesa do governo devia ser creditada a Marconi Perillo e não a Alcides, pois este já teria herdado os problemas de seu antecessor. O prefeito preservava a relação com o governador, numa tentativa de deixar aberta a porta para uma aliança eleitoral futura.

Ao antecipar o debate, ele poderá criar mais um problema para ele próprio, estimular a cobrança de que faz campanha para prefeito agora, mas pensando em deixar o cargo daqui a dois anos para disputar o governo. Até o momento, o prefeito vem contornando essa cobrança, alegando que seu futuro dependerá dos interesses do povo. Mas se ele incentivar muito esse debate correrá o risco de ter de dar mais explicações do que desejaria.

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