Não é falta de respeito um
candidato apontar defeitos em
uma gestão. O debate não é pessoal, é político.
A saúde no debate eleitoral
O debate eleitoral em Goiânia começou finalmente e, não
por acaso, pela saúde. Autor do livro A Cabeça do Eleitor (Record), Alberto Carlos
Almeida acredita que o eleitor sabe muito bem distinguir as competências de um prefeito,
de um governador e do presidente da República. Segundo ele, o eleitor entende que a
geração de empregos e o controle da inflação são assuntos para uma campanha de
presidente da República; que segurança pública e investimentos em infra-estrutura cabem
ao Estado e ao prefeito, os assuntos que afetam o dia a dia da população, como
transporte coletivo, educação, saúde, etc.
Essa compreensão combinada com a percepção do eleitor de
que foi na área de saúde que o prefeito Iris Rezende teve o seu pior desempenho à
frente da Prefeitura de Goiânia (pesquisa Serpes 13/10/07) jogaram o tema no olho do
furacão: de um lado a demanda da população por melhoria nos serviços e, de outro, a
possibilidade da oposição expor uma fragilidade administrativa do bem-avaliado prefeito.
Não podia dar em outra coisa.
O que espantou foi a reação irritada do prefeito ao
primeiro programa eleitoral de Sandes Júnior com críticas ao atendimento de saúde por
parte do município. No sábado, um dia depois da exibição do programa, Iris pediu
respeito a seu adversário e disse que se há caos na saúde é por que o
Estado não investe os 12% constitucionais no setor. Depois ele reclamou para aliados que
estava em seu canto fazendo campanha, mas que, se os adversários querem o confronto, ele
estaria pronto para entrar na briga.
Essa reação até seria compreensível em um político com
pouca experiência. Não é o caso de Iris, escolado em uma carreira que completará 50
anos agora em outubro. Iris já disse algumas vezes que a violência (incluindo a verbal)
faz parte da política e que é próprio da atividade um adversário criticar o outro, e
que, mesmo quando este não tem o que dizer contra o outro, inventa. Sandes Júnior está
em campanha e se ele pretende mesmo honrar essa candidatura precisará arriscar e fazer
críticas a seu adversário, que está na casa dos 70% das intenções de voto, segundo a
última pesquisa Serpes/O POPULAR.
Para crescer na preferência do eleitor, o candidato do PP
terá de se virar para tirar votos de Iris, daí os ataques diretos. Se o prefeito conhece
bem as regras do jogo político por que ele reagiu com tanta indignação? Por que cedeu
munição ao adversário, que não só ironizou sua irritação, propondo que ele tomasse
maracujina para se preparar para as próximas críticas, como também se aproveitou do
fato político gerado pelo próprio prefeito, que valorizou as críticas de Sandes à
administração. Curioso, mas o experiente Iris alimentou um fato que poderia ter ficado
nos limites do horário eleitoral e deu munição para Sandes continuar na sua pregação
de que há um caos no atendimento à população nos Cais e postos de saúde
em Goiânia.
A campanha eleitoral ocorre numa arena; no centro estão
todos os candidatos e, ao redor, o eleitor, que a tudo assiste para se decidir no dia em
que for colocar seu voto na urna. Não existe campanha isolada, cada um trabalhando em seu
canto para convencer o eleitor.
Sandes tem uma tarefa árdua. Ele já tem as suas próprias
dificuldades e limitações eleitorais a romper; está exposto na arena e precisa, pelo
menos, conseguir se apresentar como um candidato em condições de disputar o cargo, de se
mostrar atento aos problemas da cidade e de seu eleitor. Se ele se encolher em seu canto,
terá dificuldades não só nesta eleição como problemas sérios para manter sua
carreira futuramente. Não é falta de respeito um candidato apontar defeitos em uma
gestão. O debate não é pessoal, é político. Ninguém é obrigado a concordar com ele.
Iris tem todo o direito de responder aos ataques, desmentir o
que considerar mentira, mostrar o que fez. Caberá ao eleitor avaliar os dois lados, o que
é invenção, ou exagero e o que é procedente. A campanha existe para isso, um mostra o
que fez e o que pretende fazer e o outro tenta desconstruir a imagem de quem fez para se
mostrar capaz de fazer mais e melhor.
A reação do prefeito também teve um efeito colateral. Iris
puxou para 2008 o debate de 2010 ao responsabilizar o Estado pelas dificuldades do setor
de saúde em Goiânia. Pela primeira vez, ele fez uma crítica direta a Alcides Rodrigues,
o que vinha evitando fazer desde a posse do governador. O prefeito pensou duas vezes antes
da crítica, tanto que ontem elogiou o governador por ter liberado verbas para a saúde.
Iris estava entre os peemedebistas que diziam que a
responsabilidade pelos déficits entre receita e despesa do governo devia ser creditada a
Marconi Perillo e não a Alcides, pois este já teria herdado os problemas de seu
antecessor. O prefeito preservava a relação com o governador, numa tentativa de deixar
aberta a porta para uma aliança eleitoral futura.
Ao antecipar o debate, ele poderá criar mais um problema
para ele próprio, estimular a cobrança de que faz campanha para prefeito agora, mas
pensando em deixar o cargo daqui a dois anos para disputar o governo. Até o momento, o
prefeito vem contornando essa cobrança, alegando que seu futuro dependerá dos interesses
do povo. Mas se ele incentivar muito esse debate correrá o risco de ter de dar mais
explicações do que desejaria. |