Goiânia, 22 de agosto de 2008

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Certas incertezas

::EDIVAL LOURENÇO

O que faremos quando o Sol da era que vem vindo derrete os gelos polares e os circuitos impressos de nossos engenhos e caem por terra a pátria do urso branco e as pontes que nos davam acesso a mundos virtuais ou paralelos? A propósito, pra onde irão os mundos paralelos e virtuais, quando o mundo real se reduz a seus elementos primitivos?

O que faremos quando o deserto invade vales e outeiros, fazendo gaguejar os rios que até bem antes conduziam seu fluvial discurso com fluência e flâmula de orador bíblico, incendiado pela centelha divina?

O que faremos quando o pelame verde do campo, que floria na primavera, fica tão ressecado que nem o verde do dólar consiga sobreviver? E se sobreviver algum dólar, o que ele haverá de comprar se o Sol, este monstro de ouro em brasa, estará bebendo de canudinho as últimas gotas de água de nossos ossos sobre a Terra?

Nessa hora, o que serão de nossas filosofias, de nossos regimes políticos, de nossa gula econômica, de nossas preferências pessoais, de nosso orgulho bobo, de nossa ambição sem freio, de nossos delírios santos, de nossas línguas secretas, de nossas utopia de reino eterno?

O que serão dos sonhos do João que queria ter filhos e netos para serem felizes sobre um planeta salubre? O que serão dos sonhos da Maria que até havia trançado em crochê (sua pobre epopéia de fios ordinários) os sapatinhos de seu rebento que viria no fragor da primavera?

O que serão dos gatos, dos cães de estimação, dos pássaros que calavam no verão e cantavam na primavera, do gado zebu que caminhava calmamente pelo pasto sem saber que sua caminhada era um ensaio ministrado por belzebu, com vistas ao matadouro se aproximando? O que serão doa ratos, das formigas, dos carrapatos, dos sapos da lagoa, das borboletas, dos peixes que voavam sob as águas, das baratas, dos cupins que apenas queriam ser felizes quando implicavam com as traves de madeira sem lei da choupana que acolheu minha infância?

Nessa hora por onde andarão meus colegas de infância, quando pescávamos no Rio Claro (que ainda era claro de fato), ouvindo contar histórias de peixes monumentais e diamantes escandalosos de grandes? Por onde andarão meus colegas de primário e de sonho, lá do Grupo Escolar Israel de Amorim, daquele Iporá antigo, de palha e taquara (quase uma Macondo de Garcia Márquez), poeira e erosões sem fim?

Numa hora assim, de que valerão minha certidão de nascimento, meu batistério amarelado, minha carteira da Ordem, meu diploma de honra ao mérito, minha placa de bons serviços prestados, minha medalha de comendador e os velhos retratos de família, que guardo no fundo do cofre como se fossem ações do Banco do Brasil?

Francamente, numa hora assim, de que valerão estas linhas que escrevo?