| Vivendo de saudade JOSÉ MENDONÇA TELES
À medida que a gente vai chegando lá, a saudade vai batendo
aqui. Chega de supetão e vai entrando corpo adentro, tirando as coisas do lugar, fazendo
as maiores estripulias, deixando a gente num estado de indecisão: ou deixa a saudade
bater fundo, ou levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima.
Acostumado com sua presença, vou deixando o tempo correr,
procurando acomodá-la nos meus anseios, pois sei que assim agindo vou vivendo os meus
dias de espera. Razão tinha o poeta Guilherme de Almeida, ao afirmar que Infeliz
quem passa pelo mundo/ procurando do amor felicidade!/ A mais linda ilusão dura um
segundo/ e dura a vida inteira uma saudade.
Assim, mais uma vez me envolvo com o tema saudade. Mexendo
numa gaveta de guardados, encontro dois poemas que fiz para as netas Isabella e Laura,
quando elas tinham respectivamente sete e seis anos. Eu perguntava, no poema: E as
historinhas, Bebella/ até quando irei contá-las?/ O Romãozinho fazendo artes/ e o
Chapeuzinho Vermelho / levando doces para a vovozinha! Até quando, Bebella/ posso viver
esse sonho/ de tê-la nos meus sonhos/ todos os dias/ enquanto a noite não vem?
Para Laura, eu afirmava: Laurinha, quero você /
pequenininha,/ correndo pela casa,/ fazendo arte; falando meu vô/ a toda
hora.
A vida é mesmo um sofrimento em conta-gota. Vivemos
carregados de dores e para todas elas, tanto para a dor física como a psíquica, temos o
remédio. Mas quando a dor é a saudade, não há remédio. Temos de aceitá-la.
E como é bom conviver com a saudade. Quando ela chega, já
estou paramentado para recebê-la. Aí, vem o poema-canção de Mário Palmério: Se
queres compreender o que é saudade/ terás que antes de tudo conhecer/ Sentir o que é
querer e o que é ternura. E ter também um grande amor-viver!/ Então compreenderás o
que é saudade/ Depois de ter vivido um grande amor/ Saudade é solidão/ melancolia/ é
nostalgia/ é recordar viver!
Isabella e Laurinha não ouvem mais historinhas do vovô,
não brincam mais de bonecas, estão na faixa dos 15 anos, o mundo delas é outro, de
ilusões e vaidades. Sei que estão crescendo, buscando sua própria identidade, mas este
cronista, saudosista, gostaria que elas continuassem como nos versos de Vinicius de
Moraes: Menininha do meu coração/ eu só quero você a três palmos do
chão.
Saudade é o alimento, a energia da vida, o que seria de
nós, seres humanos, se não existisse saudade? |