| O diálogo das sombras GABRIEL NASCENTE
Sombra I - Debos do mal. O mórbido está solto. Tanto que
até hoje não acabaram de assassinar Cristo. A tragédia da cruz perdura-se, entre nós,
sangrenta, nos homens. Id est: Deus anda acabrunhado, com dor de cabeça. Os vergéis
perderam o halo de suas vicissitudes. E as borboletas, desaparecidas do cerúleo das
auroras, voejam tristes, feito cadáveres de folhas secas, ciscos da natureza dão adeus
à natureza. Ora, pois! Diante do que vejo, prostro-me, indignada, aos pés da minha
própria alma. O paraíso não este. E a luz precipita-se em mudar de endereço; porque o
homem, no albor desse estrambótico terceiro milênio, barbariza os seus atos,
estupidamente imbecil, desde os obscuros primórdios da pedra. E é o arquiteto das
matanças. Sempre foi, com tempo para tudo, menos para ser feliz.
Acocorando-se sobre a tosca soleira da janela, a Sombra II,
de uterino lastro consanguíneo à Sombra I, coçou o nariz, deu uma ensaboada no verbo,
remexendo, com silêncio e postura, o lado intelectivo do seu pensar. E falou:
Você, minha umbilical irmã, já reparou que há ciência, poesia e arte, no gesto
das coisas? A chamada arquitetura do invisível, quando não se vê (e vê) os indícios
da alma, nos detalhes, sim: na anatomia dos detalhes. Donde aprendemos que o simples é a
chinela da boa índole, quando, principalmente, agüenta sobre a sola, o carregoso peso da
labuta corporal, de sol contra sol, no colher frumentos para o pão? A pensarmos bem,
minha nobre irmã, a gente, por aqui, sobre a crosta desse velho universo, nada mais somos
senão coisa hospedada em panos de sombra; fagulhas de fósforo cuspindo pólvoras em
dedos de bêbados.
Entrementes, o cárcere maior desta vida é o verbo
ter. E isso é mais antigo que a primeira gota de luz, que caiu do empírio, para inundar
de auroras as insípidas solidões desse velho planeta. E preste bem atenção nisso, ó
minha pia irmã! O quanto o verbo ter é ambicioso; se lembrarmos que o ser (e o
ser é a linguagem, conforme me ensinou a minha magnânima amiga, grande
ficcionista e poeta Augusta Faro Fleury de Melo) tadinho do ser! tem, em si,
o taoísmo do zen, o esplendor da essência, o tônus diáfano da alma (da estrela do
berço à loucura da morte) filosófico e cantante, sereno, quando visto pelos
olhos da metafísica.
Depois não há depois somos seres em
trânsito, corpos que se ardem na pira das ilusões. E a vetusta humanidade está aí,
urrando, cada vez mais imbecil. Monstros drogados esquartejam inocentes. Governantes
autorizam bombardear nuvens. Os transatlânticos, de ventres aborrotados de líquidos
mortíferos, vomitam essas espurcícias nocivas e letais, no útero dos oceanos. A selva
amazônica vai, aos poucos, se transformando num gigantesco e tétrico horizonte de
cinzas. Os magnatas dão risadas, porque são deuses da espúria, ladrões da própria
vida. Ah, um dia, quem sabe, estaremos a rir, escancaradamente, da mediocridade desses
homens inferiores: os gananciosos assassinos do nosso planeta... E foi desabafando, com o
ódio na saliva do verbo, a Sombra I, retorquindo, por solidariedade, ao choroso queixume
da Sombra II, sua valorosa e denodada irmã.
Pois é. Quem sou eu então na sombra de você em mim?
Sombra de sua sombra, na angústia desse diálogo; nós duas, ermas de nada, desossadas,
feito asas de papel, a gritarmos, sôfregas: Não expulsem de nós a luz./
Otimizemos o espírito./A linguagem é o homem./E os poetas reedificam o paraíso,
objetou a Sombra II. E despediu-se dela mesma, com nostalgia da plenitude. |