Goiânia, 19 de agosto de 2008

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O diálogo das sombras

GABRIEL NASCENTE

Sombra I - Debos do mal. O mórbido está solto. Tanto que até hoje não acabaram de assassinar Cristo. A tragédia da cruz perdura-se, entre nós, sangrenta, nos homens. Id est: Deus anda acabrunhado, com dor de cabeça. Os vergéis perderam o halo de suas vicissitudes. E as borboletas, desaparecidas do cerúleo das auroras, voejam tristes, feito cadáveres de folhas secas, ciscos da natureza dão adeus à natureza. Ora, pois! Diante do que vejo, prostro-me, indignada, aos pés da minha própria alma. O paraíso não este. E a luz precipita-se em mudar de endereço; porque o homem, no albor desse estrambótico terceiro milênio, barbariza os seus atos, estupidamente imbecil, desde os obscuros primórdios da pedra. E é o arquiteto das matanças. Sempre foi, com tempo para tudo, menos para ser feliz.

Acocorando-se sobre a tosca soleira da janela, a Sombra II, de uterino lastro consanguíneo à Sombra I, coçou o nariz, deu uma ensaboada no verbo, remexendo, com silêncio e postura, o lado intelectivo do seu pensar. E falou:
– Você, minha umbilical irmã, já reparou que há ciência, poesia e arte, no gesto das coisas? A chamada arquitetura do invisível, quando não se vê (e vê) os indícios da alma, nos detalhes, sim: na anatomia dos detalhes. Donde aprendemos que o simples é a chinela da boa índole, quando, principalmente, agüenta sobre a sola, o carregoso peso da labuta corporal, de sol contra sol, no colher frumentos para o pão? A pensarmos bem, minha nobre irmã, a gente, por aqui, sobre a crosta desse velho universo, nada mais somos senão coisa hospedada em panos de sombra; fagulhas de fósforo cuspindo pólvoras em dedos de bêbados.

– Entrementes, o cárcere maior desta vida é o verbo ter. E isso é mais antigo que a primeira gota de luz, que caiu do empírio, para inundar de auroras as insípidas solidões desse velho planeta. E preste bem atenção nisso, ó minha pia irmã! O quanto o verbo ter é ambicioso; se lembrarmos que o ser (e o “ser” é a linguagem, conforme me ensinou a minha magnânima amiga, grande ficcionista e poeta Augusta Faro Fleury de Melo) – tadinho do ser! – tem, em si, o taoísmo do zen, o esplendor da essência, o tônus diáfano da alma (da estrela do berço à loucura da morte) – filosófico e cantante, sereno, quando visto pelos olhos da metafísica.

Depois – não há depois – somos seres em trânsito, corpos que se ardem na pira das ilusões. E a vetusta humanidade está aí, urrando, cada vez mais imbecil. Monstros drogados esquartejam inocentes. Governantes autorizam bombardear nuvens. Os transatlânticos, de ventres aborrotados de líquidos mortíferos, vomitam essas espurcícias nocivas e letais, no útero dos oceanos. A selva amazônica vai, aos poucos, se transformando num gigantesco e tétrico horizonte de cinzas. Os magnatas dão risadas, porque são deuses da espúria, ladrões da própria vida. Ah, um dia, quem sabe, estaremos a rir, escancaradamente, da mediocridade desses homens inferiores: os gananciosos assassinos do nosso planeta... E foi desabafando, com o ódio na saliva do verbo, a Sombra I, retorquindo, por solidariedade, ao choroso queixume da Sombra II, sua valorosa e denodada irmã.

– Pois é. Quem sou eu então na sombra de você em mim? Sombra de sua sombra, na angústia desse diálogo; nós duas, ermas de nada, desossadas, feito asas de papel, a gritarmos, sôfregas: “Não expulsem de nós a luz./ Otimizemos o espírito./A linguagem é o homem./E os poetas reedificam o paraíso”, objetou a Sombra II. E despediu-se dela mesma, com nostalgia da plenitude.