| A lata de magnésio MÁRIO DE MORAES
Naquele distante ano de 1936, o fotógrafo alemão Ed
Keffel só tinha oito meses de Brasil. Ele viera da Alemanha, onde fora tudo. Desenhista,
redator, cenarista, cinegrafista, fotógrafo. Agora, procurava tentar a vida no Sul do
Brasil, em Porto Alegre.
Precedido de fama internacional, em pouco tempo Keffel
viu-se instalado com um estúdio fotográfico no Edifício Renner: Stúdio Os Dois. Tinha
uma especialidade: fotografias tiradas com Leica, a ainda pouco conhecida câmara alemã
de 35 mm.
O negócio corria de vento em popa. A opinião geral era de
que aquele alemão alto, louro, entendia realmente do riscado. Certo dia apareceu um
serviço de última hora: fotografar a festa de aniversário de um menino, filho de alto
funcionário de uma empresa de navegação. O preço foi tratado e logo aceito: 20
mil-réis por cada duas cópias 18x24.
E lá se foi o Keffel com a pequena máquina e o flash para
a casa do aniversariante. Levava, também, uma lata original de magnésio, contendo 100
gramas do produto. Naquela época era muito dispendioso utilizar lâmpadas, pois cada uma
custava 5 mil-réis.
A sala estava cheia. Crianças por todos os lados,
apitando, brincando com bolas, correndo em torno dos móveis. Com a chegada de Keffel, o
movimento parou como por encanto. Todos queriam ver o fotógrafo em ação. Por isso, ele
iniciou a montagem da pose.
O bolo de aniversário em primeiro plano. O aniversariante,
logo atrás. O pai da criança de um lado; a mãe, de outro. Dois grupos de convidados,
dispostos em torno da mesa. Todos bem parados. Aquele ali, o menorzinho, devia pentear os
cabelos. Keffel ajeitou-os com um pente. Depois, a gravatinha de um outro. Colocou os pais
do aniversariante na posição correta. Fez o aniversariante sorrir. Tudo por mímica, já
que poucas eram as palavras em português que Ed Keffel sabia dizer. E ninguém ali
entendia alemão.
Finalmente, depois de uma boa meia hora, o grupo parecia
formado. Vinham, agora, os preparativos técnicos, Keffel abriu cuidadosamente a lata de
magnésio, tirou dela meio grama e colocou-o no flash. Depois, levou a lata para bem
longe, para um canto onde ninguém pudesse pegá-la.
Ed Keffel sorriu com afetação, para que todos o
imitassem. E apertou o obturador da máquina.
O flash funcionou com exatidão. O grupo estava gravado na
película. Keffel nem bem tinha tirado a vista do visor da Leica, quando aconteceu o
inesperado. Um estrondo, seguido de imenso clarão, e a sala foi envolvida por grossa
nuvem de fumaça.
Dir-se-ia que uma bomba estourara dentro da casa. Aos
poucos, tudo foi clareando novamente e Keffel viu os estragos. Todos os vidros da rica
cristaleira e das janelas partidos; os cristais em pedaços; o aniversariante, seus pais,
convidados e até o próprio Keffel com a cara e as roupas cobertas de pó; uma senhora
com o vestido chamuscado.
Ed Keffel, dentro de toda aquela confusão, tentava
explicar o que acontecera ao dono da casa, que o olhava aparlemado, sem entender patavina,
pois o fotógrafo, muito nervoso, falava em alemão. O fato é que uma faísca escapara do
flash e atingira a lata de magnésio, que estava fechada e a 3 metros de distância.
Felizmente, apareceu um intérprete e coisa pôde ser
esclarecida. Os prejuízos atingiram 1 conto e 800 mil-réis, consideráveis naqueles
ontens. Ed Keffel prometeu pagar tudo, e o dono da casa não apresentou queixa à
polícia, dando o caso por encerrado.
Ed Keffel, que tornou-se um dos mais famosos fotógrafos
internacionais, através da revista O Cruzeiro, infelizmente já nos deixou. Mas, quando
vivo, de quando em quando lembrava-se desse terrível mico. |