Goiânia, 18 de agosto de 2008

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A lata de magnésio

MÁRIO DE MORAES

Naquele distante ano de 1936, o fotógrafo alemão Ed Keffel só tinha oito meses de Brasil. Ele viera da Alemanha, onde fora tudo. Desenhista, redator, cenarista, cinegrafista, fotógrafo. Agora, procurava tentar a vida no Sul do Brasil, em Porto Alegre.

Precedido de fama internacional, em pouco tempo Keffel viu-se instalado com um estúdio fotográfico no Edifício Renner: Stúdio Os Dois. Tinha uma especialidade: fotografias tiradas com Leica, a ainda pouco conhecida câmara alemã de 35 mm.

O negócio corria de vento em popa. A opinião geral era de que aquele alemão alto, louro, entendia realmente do riscado. Certo dia apareceu um serviço de última hora: fotografar a festa de aniversário de um menino, filho de alto funcionário de uma empresa de navegação. O preço foi tratado e logo aceito: 20 mil-réis por cada duas cópias 18x24.

E lá se foi o Keffel com a pequena máquina e o flash para a casa do aniversariante. Levava, também, uma lata original de magnésio, contendo 100 gramas do produto. Naquela época era muito dispendioso utilizar lâmpadas, pois cada uma custava 5 mil-réis.

A sala estava cheia. Crianças por todos os lados, apitando, brincando com bolas, correndo em torno dos móveis. Com a chegada de Keffel, o movimento parou como por encanto. Todos queriam ver o fotógrafo em ação. Por isso, ele iniciou a montagem da “pose”.

O bolo de aniversário em primeiro plano. O aniversariante, logo atrás. O pai da criança de um lado; a mãe, de outro. Dois grupos de convidados, dispostos em torno da mesa. Todos bem parados. Aquele ali, o menorzinho, devia pentear os cabelos. Keffel ajeitou-os com um pente. Depois, a gravatinha de um outro. Colocou os pais do aniversariante na posição correta. Fez o aniversariante sorrir. Tudo por mímica, já que poucas eram as palavras em português que Ed Keffel sabia dizer. E ninguém ali entendia alemão.

Finalmente, depois de uma boa meia hora, o grupo parecia formado. Vinham, agora, os preparativos técnicos, Keffel abriu cuidadosamente a lata de magnésio, tirou dela meio grama e colocou-o no flash. Depois, levou a lata para bem longe, para um canto onde ninguém pudesse pegá-la.

Ed Keffel sorriu com afetação, para que todos o imitassem. E apertou o obturador da máquina.

O flash funcionou com exatidão. O grupo estava gravado na película. Keffel nem bem tinha tirado a vista do visor da Leica, quando aconteceu o inesperado. Um estrondo, seguido de imenso clarão, e a sala foi envolvida por grossa nuvem de fumaça.

Dir-se-ia que uma bomba estourara dentro da casa. Aos poucos, tudo foi clareando novamente e Keffel viu os estragos. Todos os vidros da rica cristaleira e das janelas partidos; os cristais em pedaços; o aniversariante, seus pais, convidados e até o próprio Keffel com a cara e as roupas cobertas de pó; uma senhora com o vestido chamuscado.

Ed Keffel, dentro de toda aquela confusão, tentava explicar o que acontecera ao dono da casa, que o olhava aparlemado, sem entender patavina, pois o fotógrafo, muito nervoso, falava em alemão. O fato é que uma faísca escapara do flash e atingira a lata de magnésio, que estava fechada e a 3 metros de distância.

Felizmente, apareceu um intérprete e coisa pôde ser esclarecida. Os prejuízos atingiram 1 conto e 800 mil-réis, consideráveis naqueles ontens. Ed Keffel prometeu pagar tudo, e o dono da casa não apresentou queixa à polícia, dando o caso por encerrado.

Ed Keffel, que tornou-se um dos mais famosos fotógrafos internacionais, através da revista O Cruzeiro, infelizmente já nos deixou. Mas, quando vivo, de quando em quando lembrava-se desse terrível mico.