Goiânia, 17 de maio de 2008

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Vincent Kessler/Reuters

Nuri Bilge Ceylan, diretor de Three Monkeys

Filmes sobre família
esquentam mostra

Three Monkeys , de Nuri Bilge Ceylan,
e Un Conte de Nöel, de Arnaud
Desplechin, são exibidos em Cannes

Duas revisões de gêneros, dois filmes sobre a família, esquentaram o 61º Festival de Cannes. O cineasta turco Nuri Bilge Ceylan reinventou A Mulher Infiel, de Claude Chabrol, e com Three Monkeys propôs uma espécie de melodrama criminal, ou policial, mesmo que seu filme não siga a estrutura clássica – quem matou e por quê? O francês Arnaud Desplechin mostrou seu Un Conte de Nöel. Queridinho da revista Cahiers du Cinéma – que estampa seu filme na capa como a grande aposta para a Palma de Ouro –, Desplechin segue a regra básica do melodrama, segundo Douglas Sirk, em que tudo se passa em família, e no mesmo lugar. Seu filme possui uma estrutura romanesca, estruturado em capítulos, cada um dedicado a um integrante desta família em crise. O classicismo é subvertido pela modernidade da mise-en-scène.

Dois filmes sobre a família – em Three Monkeys, o motorista de um político é cooptado pelo chefe para assumir a autoria de um atropelamento com morte. Ele vai preso e, durante sua ausência, o político torna-se amante de sua mulher. O filho descobre e a tragédia está formada. A família desintegra-se. Há algo de Georges Simenon – sem Maigret – na descrição desse universo no limite da ‘normalidade’ burguesa e do submundo. Se os atores fossem Michel Bouquet e Stéphane Audran, teríamos (quase) um remake do admirável filme de Chabrol, por volta de 1970. Nuri Bilge Ceylan não é o grande diretor francês, mas é, ele próprio, um dos grandes talentos do cinema atual. Ele discute relações familiares e morais e, no limite, o próprio cinema. A natureza, como sempre em seu cinema, participa do clima. A neve dos filmes precedentes é substituída pela tempestade iminente.

Pode-se elogiar os atores do filme turco – Hatice Aslan, Yavouz Bingol e Ercan Kexal –, mas o que dizer de Catherine Deneuve, Chiara Mastroianni, Mathieu Amalric, Jean-Paul Rousselin, Melvil Poupaud e Hippolyte Girardot? São magníficos no filme de Desplechin, que não é só reverenciado por Cahiers, mas pelo próprio festival. Todos os seus filmes passaram – Comment Je Me Suis Dispité (Ma Vie Sexuelle), Esther Khan e Reis e Rainha –, mas se há um com o qual ele se arrisca a ganhar a Palma é justamente Un Conte de Nöel.

É verdade que Cahiers não dá muita sorte e todos os filmes que coloca na capa de sua edição festivalesca terminam ignorados pelo júri. Ainda é cedo para apostas definitivas. Mas o conto de Natal de Desplechin bem poderia quebrar a escrita.

Catherine Deneuve faz a matriarca que está morrendo de câncer. Ela é magnífica e, com o tempo, adquiriu aquela boca amarga que é a marca de Jeanne Moreau. A família reúne-se para o Natal. Na verdade, há uma negociação subterrânea para que um dos filhos seja o doador, o transplante que a matriarca precisa fazer, só que todos se odeiam – e, no caso de Mathieu Amalric, o vilão anunciado da história, nem ele nem a mãe se suportam. Desplechin fez um filme jubilatório, sem medo de mudar de estilo e de trilha segundo os diferentes capítulos da sua crônica familiar. (Agência Estado)

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