Vincent Kessler/Reuters

Nuri Bilge Ceylan, diretor de
Three Monkeys |
Filmes sobre família
esquentam mostra
Three Monkeys , de Nuri Bilge Ceylan,
e Un Conte de Nöel, de Arnaud
Desplechin, são exibidos em Cannes
Duas revisões de gêneros, dois filmes sobre a família,
esquentaram o 61º Festival de Cannes. O cineasta turco Nuri Bilge Ceylan reinventou A
Mulher Infiel, de Claude Chabrol, e com Three Monkeys propôs uma espécie de melodrama
criminal, ou policial, mesmo que seu filme não siga a estrutura clássica quem
matou e por quê? O francês Arnaud Desplechin mostrou seu Un Conte de Nöel. Queridinho
da revista Cahiers du Cinéma que estampa seu filme na capa como a grande aposta
para a Palma de Ouro , Desplechin segue a regra básica do melodrama, segundo
Douglas Sirk, em que tudo se passa em família, e no mesmo lugar. Seu filme possui uma
estrutura romanesca, estruturado em capítulos, cada um dedicado a um integrante desta
família em crise. O classicismo é subvertido pela modernidade da mise-en-scène.
Dois filmes sobre a família em Three Monkeys, o
motorista de um político é cooptado pelo chefe para assumir a autoria de um
atropelamento com morte. Ele vai preso e, durante sua ausência, o político torna-se
amante de sua mulher. O filho descobre e a tragédia está formada. A família
desintegra-se. Há algo de Georges Simenon sem Maigret na descrição desse
universo no limite da normalidade burguesa e do submundo. Se os atores fossem
Michel Bouquet e Stéphane Audran, teríamos (quase) um remake do admirável filme de
Chabrol, por volta de 1970. Nuri Bilge Ceylan não é o grande diretor francês, mas é,
ele próprio, um dos grandes talentos do cinema atual. Ele discute relações familiares e
morais e, no limite, o próprio cinema. A natureza, como sempre em seu cinema, participa
do clima. A neve dos filmes precedentes é substituída pela tempestade iminente.
Pode-se elogiar os atores do filme turco Hatice Aslan,
Yavouz Bingol e Ercan Kexal , mas o que dizer de Catherine Deneuve, Chiara
Mastroianni, Mathieu Amalric, Jean-Paul Rousselin, Melvil Poupaud e Hippolyte Girardot?
São magníficos no filme de Desplechin, que não é só reverenciado por Cahiers, mas
pelo próprio festival. Todos os seus filmes passaram Comment Je Me Suis Dispité
(Ma Vie Sexuelle), Esther Khan e Reis e Rainha , mas se há um com o qual ele se
arrisca a ganhar a Palma é justamente Un Conte de Nöel.
É verdade que Cahiers não dá muita sorte e todos os filmes
que coloca na capa de sua edição festivalesca terminam ignorados pelo júri. Ainda é
cedo para apostas definitivas. Mas o conto de Natal de Desplechin bem poderia quebrar a
escrita.
Catherine Deneuve faz a matriarca que está morrendo de
câncer. Ela é magnífica e, com o tempo, adquiriu aquela boca amarga que é a marca de
Jeanne Moreau. A família reúne-se para o Natal. Na verdade, há uma negociação
subterrânea para que um dos filhos seja o doador, o transplante que a matriarca precisa
fazer, só que todos se odeiam e, no caso de Mathieu Amalric, o vilão anunciado da
história, nem ele nem a mãe se suportam. Desplechin fez um filme jubilatório, sem medo
de mudar de estilo e de trilha segundo os diferentes capítulos da sua crônica familiar. (Agência
Estado) |