Necessidade de mais critérios
Preocupar-se com a cultura local, tomar iniciativas para
estimular escritores de talento e possibilitar que estudantes tenham acesso a obras de
real valor literário são, obviamente, posturas louváveis em um homem público. Mas tudo
isso precisa ser feito com critério, em diversos sentidos. É necessário que o vereador
Rusembergue Barbosa saiba quanto vai custar e as formas de implementar sua proposta. Isso
é o mínimo, o básico.
Essa questão leva a outros debates. O projeto apega-se a um
conceito discutível: literatura goiana, que não faz muito sentido e que soa bairrista,
provinciana. Literatura é literatura. Quando de qualidade, ela será boa em Goiás, no
Brasil, no Japão. Bernardo Élis não escrevia livros goianos, assim como
Guimarães Rosa não é um escritor de livros mineiros. Tentar criar um gueto
literário em Goiás é uma estratégia que serve apenas para enfraquecer os bons autores
que nasceram ou moram aqui.
Goiás teve e continua a ter bons autores que merecem ser
reconhecidos. Mas é preciso admitir que há muitos amadores no mercado, gente que escreve
mal, que não tem autocrítica e que edita livros <EM><QA0>
horrorosos pensando que são obras-primas.
Se os alunos da rede municipal forem obrigados a ler esses
bagulhos, será um verdadeiro crime contra a infância e a adolescência.
A qualidade literária e a decência das edições precisam
figurar entre as principais preocupações em projetos dessa natureza. Livros ruins causam
um prejuízo enorme, sobretudo nas crianças. Eles podem desestimular os alunos a
continuarem lendo, danificam o uso do vocabulário, deturpam o ensino da língua
portuguesa. Mediocridade gera mediocridade. E isso vale para qualquer lugar, em qualquer
tempo, não só para Goiás. E apenas mais um adendo: gosto pela leitura não se forma por
meio de leis e sim de bons livros. (RB)