Goiânia, 17 de maio de 2008

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Coisas do mundo

Marcos Fayad

Há tantas coisas para gozar no mundo e a nossa vida é tão curta que sofrer é uma perda de tempo irreversível. Primeiro pensemos nos encontros e reencontros que dão graça e sabor à vida. Porque nossos pais se encontraram é que estamos todos aqui, não é preciso dizer nada mais sobre isso.

Negar e recusar alguma proposta de amor, amizade ou encontro chega a ser uma desfeita com a natureza humana, já que nada mais se leva do mundo que não sejam essas possibilidades afetivas.

E a cada encontro confirmamos a parábola bíblica que diz que somos filhos de um mesmo pai e irmãos uns dos outros. Mesmo que às vezes a gente tenha de engolir irmãos como esses assassinos enlouquecidos e desequilibrados, invejosos, ladrões descarados, mesmo assim irmãos, todos produtos do mesmo amor. Não somos nós que fazemos amor, mas o amor que nos fez a todos, gosto de pensar nisso de vez em quando e compartilhar esse pensamento com meus amigos porque é mais que comum nos esquecermos das coisas mais óbvias, as mais simples que dão dimensão ao nosso dia-a-dia e são capazes de nos fazer sentir um pouco de felicidade.

Tudo o que fazemos, todas as realizações e todas as buscas têm um único endereço: a felicidade, ela é o pretexto para tudo sempre. Ninguém deseja ou realiza algo que não seja com a intenção de ser feliz, convenhamos. Penso que é nisso que devemos nos concentrar ao longo da vida, na possibilidade de gozar as coisas boas que o mundo oferece e saltar a fogueira das coisas ruins que também se apresentam inexoravelmente.

A cada dia vou ampliando a lista de coisas fantásticas que preciso gozar: a música do Mozart, as paisagens das Ilhas Canárias, os milhares de sabores das pimentas do mundo, os milhões de cantos de pássaros brasileiros, o abraço no tronco de algum jequitibá sessentão, os tons de amarelo e rosa dos ypês do Cerrado, o barulho das ondas suaves do mar se quebrando na praia numa madrugada, o cheiro da maresia que não se parece com nenhum outro cheiro no mundo, a arte de despir suavemente o corpo da pessoa que você ama e deseja, os cheiros dos bebês que pressupõem o reinício do mundo, os sons das cítaras indianas à luz de velas, o sabor do champanhe, as artes, o cheiro quente das bostas de bois ressecadas nos currais numa manhã de frio, ler as palavras absolutamente geniais do imenso João Guimarães Rosa ou a magia reinventada de Gabriel García Márquez, a ternura que me inspiram os bonzais, o prazer e o desamparo de estar no palco diante de centenas de pessoas ávidas, as chuvas, os trovões e relâmpagos, as curvas dos rios que cruzam o sertão com águas escuras e misteriosas, a estranha sensação de medo e prazer de navegar num barco frágil no meio do mar do Rio Amazonas, beijar uma boca pela primeira vez, abraços apertados em amigos distantes, se deliciar com a maravilha das letras das músicas da cantora peruana Chabuca Granda, pescar traíras pesadas e ferozes, a intensa vibração positiva da fazenda Santa Branca, os mistérios da Fazenda Babilônia, a paisagem correndo ao lado da janela do carro numa viagem de manhã, a alegria comovente dos cachorros quando o dono chega de viagem, jantar numa mesa grande, comprida, cheia de parentes e pessoas que se amam, tantas, tantas coisas mais...

O poeta indiano Rabindranah Tagore dizia que quando o homem trabalha Deus não respeita, mas quando o homem canta Deus o ama. É assim também que imagino Deus, como essa força capaz de se encantar com aquilo que o homem faz e que não tenha utilidade em si mesma. Nos últimos meses, enquanto ensaiei Por Prazer, espetáculo sobre a obra do genial escritor americano Walt Whitman, fui aprendendo com ele a admirar ainda mais as coisas gratuitas que estão no mundo pra nos fazer felizes.

E é bom não esquecer que muitas pessoas morrem daquilo que têm de melhor, o coração. Li num livro de um jornalista italiano que uma vez uma senhora inglesa vendo a madre Tereza de Calcutá banhar um leproso, assustada lhe disse: “Madre, que Deus me perdoe, mas eu não banharia um leproso nem por 10 milhões de dólares”. E madre Tereza lhe respondeu: “Eu também não porque a um leproso só se pode banhar por amor”. Há tanta beleza nisso, nessa capacidade de amar, que me sinto meio envergonhado, às vezes, de ainda não ter conseguido sentir a vida assim com tanta grandeza. Pensar e viver a vida assim é o único antídoto para tantas notícias sobre a decadência do homem.

Marcos Fayad é ator e diretor de teatro bomcombate@uol.com.br

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