Goiânia, 17 de maio de 2008

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Obelisco inverso

::EDIVAL LOURENÇO

Cerotônio é furador de cisternas. Um sujeito orgulhoso e apaixonado pelo que faz. Não vê maior nobreza em quem escala andaimes, sempre caminhando para o alto, como quem campeia estrelas. Ele vê isso como atividade menor, indigna, de gente sem estatura moral. A verdadeira ascensão é cavar um buraco, perfeito cilindro, de modo que nenhum compasso, por mais preciso que seja, venha encontrar defeitos.

Ir cavando de picareta, de enxadão. Retirando cada montinho de pá. Tudo ferramenta de cabo bem curtinho. O cheiro da terra nunca antes revolvida, suas cores diferentes a cada camada, a terra argilosa, a cascalhenta, a piçarra, a lama. Ir colocando no balde e o sarilheiro lá em cima puxando numa espiral de galáxia. E seus pés a caminho do centro da terra, ao núcleo do planeta, até encontrar o lençol de água pura para manter o verde do jardim, matar a sede dos animais e dos homens. Para suster a vida, enfim. Isto, sim, é trabalho com nobreza.

Ao final do árduo dia, Cerotônio sai do buraco imundo como um tatu. Ninguém seria capaz de dizer de que cores são suas roupas. Nem sua pele é passível de distinção. Não é branca, não é negra, não é amarela. Cerotônio não tem raça. Ou melhor, ele é todas as raças fundidas no interior da terra, como um tubérculo semovente, um tubérculo orgulhoso de si mesmo, da profissão que o escolheu. Que o escolheu, sim. Por que não se lembra quando se tornou cisterneiro. Talvez seja uma coisa de nascença. Seu pai era cisterneiro, seu avô era cisterneiro, seu bisavô, sabe-se lá... Talvez o que não tenha acontecido com seus antepassados é o fenômeno da reflexão. Talvez seus antigos furassem cisternas como quem apenas fura buracos.

Mas não é o caso de Cerotônio. Para ele, cada cisterna que esburaca é um obelisco que edifica. Um obelisco invertido, é bem verdade. Mas, por isso mesmo, mais cheio de triunfos e glórias do que aqueles obeliscos espetando o céu, que governos corruptos ou despóticos, muitas vezes despóticos e corruptos, elevam nas praças para demarcarem seu tempo, os feitos de sua administração. Para serem lembrados pelas gerações vindouras, quando deles ninguém mais guardar feições. Meu obelisco celebra a essência, o deles a vaidade.

Estava lá ele entranhado na terra, entregue às suas reinações de cavador pensativo, na construção de mais um obelisco inverso e que, além de monumento, tem a serventia da água potável. Animado pelo espírito de realização e grandeza que seus pensamentos em sim mesmo inoculavam, feito um veneno do bem.

Absorto em reflexões metacisternais, não percebeu que o sarilheiro em ação irrevogável rodou o mecanismo, chamando o balde à superfície, sem que a carga estivesse pronta. Tampouco percebeu quando o gancho pespegou-lhe a capa do olho e o puxou irremediavelmente, na fisga, até fora do chão, como um peixe bizarro. Por sorte, havia uma equipe de TV fazendo imagens nas imediações, que fez o flagrante. Naquele dia, Cerotônio se tornou o primeiro e único homem a ser retirado de uma cisterna fisgado pela capa do olho. Virou celebridade mundial. Embora seu sonho fosse apenas o de edificar anônimos obeliscos invertidos.